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SÃO CARLOS/SP - Pesquisadores do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP) e da Universidade Nacional de San Agustin de Arequipa (Peru) deram um importante passo para entender melhor como o veneno da surucucu (Lachesis muta) - a maior serpente peçonhenta das Américas e uma das mais perigosas da Amazônia - age no organismo humano. Pela primeira vez, eles conseguiram revelar a estrutura tridimensional e confirmar a atividade de uma das principais toxinas do veneno da espécie, uma enzima do tipo fosfolipase A2, descoberta que poderá contribuir para o desenvolvimento de antivenenos mais eficazes e até de novos medicamentos.

A proteína estudada pertence ao grupo das fosfolipases A2, enzimas responsáveis por boa parte dos danos provocados pelo veneno. Elas atacam as membranas das células, causando inflamação, destruição de tecidos e outras alterações que tornam o envenenamento grave.

Para realizar o estudo, que foi publicado recentemente na revista "Acta Crystallographica Section F: Structural Biology Communications", os cientistas isolaram essa proteína do veneno da surucucu, comprovaram que ela permanecia ativa e, em seguida, utilizaram técnicas avançadas de cristalografia de raios X para visualizar sua estrutura em nível atômico. O trabalho foi realizado com o auxílio do Sirius, acelerador de partículas localizado no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas (SP).

Descobertas importantes

Os resultados mostraram que a proteína possui uma estrutura muito semelhante à de outras toxinas encontradas em serpentes, mas apresenta características próprias que ajudam a explicar sua eficiência em atacar as células. A análise da estrutura indica ainda que a proteína pode se organizar em grupos de quatro moléculas, um arranjo que poderia aumentar sua capacidade de agir sobre as membranas celulares, mas que ainda precisa ser confirmado experimentalmente.

Outra descoberta importante foi a identificação de uma região da proteína com forte carga elétrica positiva. Essa característica facilita a aproximação da toxina das células, permitindo que ela se ligue mais facilmente às membranas e exerça sua ação destrutiva.

Embora ainda sejam necessários novos estudos para confirmar esse comportamento no organismo, a descoberta oferece pistas importantes sobre o funcionamento do veneno.

Os testes realizados em laboratório também confirmaram que a proteína mantém elevada atividade biológica. Quanto maior a concentração da enzima, maior foi sua capacidade de degradar substâncias presentes nas membranas celulares, confirmando seu papel como uma das principais responsáveis pelos efeitos do envenenamento causado pela surucucu.

O desenvolvimento de novos medicamentos

Segundo os pesquisadores, conhecer em detalhes a estrutura dessas toxinas é fundamental para aprimorar os soros antiofídicos. Ao identificar exatamente como a proteína atua e quais regiões são responsáveis por sua atividade, torna-se possível desenvolver substâncias capazes de bloquear sua ação de forma mais eficiente, aumentando a eficácia dos tratamentos contra acidentes com serpentes.

Os resultados também ultrapassam o campo da toxicologia. O estudo fornece informações valiosas para o desenvolvimento de novos medicamentos. Moléculas presentes em venenos de serpentes já deram origem a fármacos utilizados no tratamento de doenças cardiovasculares, como hipertensão arterial, demonstrando o potencial terapêutico dessas substâncias quando estudadas em profundidade.

Ao revelar, em nível atômico, a estrutura dessa proteína da surucucu, os pesquisadores oferecem uma base para que futuros estudos possam desenvolver compostos capazes de controlar processos inflamatórios, proteger tecidos contra lesões ou atuar em outras doenças que envolvem alterações nas membranas celulares.

Embora essas aplicações ainda dependam de novas pesquisas e testes, o conhecimento obtido representa um passo importante para transformar uma toxina altamente perigosa em fonte de novas estratégias terapêuticas.

A importância de colaborações internacionais

Os autores da pesquisa destacam que esta é a primeira descrição conjunta da estrutura e da atividade de uma fosfolipase A2 do tipo Asp49 da surucucu.

Para o pesquisador do IFSC/USP, Dr. Diego Antonio Leonardo, autor correspondente do estudo, o trabalho demonstra a importância da colaboração internacional na investigação de compostos naturais com potencial biomédico. “Este trabalho é o resultado de um esforço de muitos anos para introduzir e consolidar a biologia estrutural no Peru, em parceria com instituições peruanas. Ver uma toxina amazônica purificada e caracterizada e ter sua estrutura resolvida no Sirius e publicada internacionalmente é a concretização de um objetivo que perseguimos desde 2014. Mas, mais importante do que a estrutura em si é o que ela representa: pesquisadores peruanos formados em cristalografia, resolvendo estruturas de toxinas da própria biodiversidade do país. Coube a mim atuar como ponte entre esses dois lados, um papel que o Prof. Richard Garratt, que também assina esta pesquisa, fomentou e apoiou desde o início, e cada publicação como esta mostra que esse caminho é viável e nos aproxima de tornar a biologia estrutural uma realidade permanente no Peru.”

Além de ampliar o conhecimento sobre os mecanismos do envenenamento, a pesquisa cria uma base científica sólida para o desenvolvimento de antivenenos mais específicos e para a descoberta de novos medicamentos inspirados em moléculas naturais presentes no veneno dessa serpente.

Confira no link o original da pesquisa - https://journals.iucr.org/f/issues/2026/05/00/nq5002/index.html

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