UCRÂNIA - Na Ucrânia, combates intensos continuam a travar-se na região do Donbass e, em particular, na província de Donetsk. Bakhmut e Avdiivka são alguns dos pontos críticos, onde os combates não poupam os civis que não querem deixar as suas casas.
A cidade de Avdiivka, ainda nas mãos da Ucrânia, fica a 15 quilómetros de Donetsk, capital da região com o mesmo nome, mas controlada pelos russos. Na cidade, viviam 30 mil pessoas, mas hoje permanecem apenas 2500 pessoas, incluindo 44 crianças que vivem sob constantes bombardeamentos.
Muitos habitantes não querem deixar as suas casas, apesar de não haver eletricidade há 10 meses.
“Não há condições de segurança para tentar reparar a rede, alguns operacionais ficaram feridos quando tentaram fazê-lo”, explica o chefe da administração militar da cidade. Não há água nem gás. A ajuda humanitária chega por via militar, com caixas para um mês de sobrevivência providenciadas por ONGs estrangeiras e pelo Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas.
Em declarações à RFI, Vitali Barabash revela que a situação se deteriorou muito nas últimas duas semanas.
“Não sabemos exactamente o que está na cabeça deles, mas sabemos quais são os seus objetivos - querem tomar toda a região de Donetsk e Luhansk. Por isso, precisam de tomar Avdiivka. Mas, além disso, precisam de controlar Karlivka que é um reservatório de água para metade da região. Na guerra é impossível atravessar algo tão grande. O maior problema que temos é que se tomarem Avdiivka, vão ficar com o controlo de Karlivka. E não haverá fornecimento de água aos civis da região”, explica o responsável militar.
Se tomarem Karlivka, a cidade de Prokovsk estará ao alcance da artilharia do inimigo. Para esta cidade, ponto de entrada e saída do Donbass, têm convergido muitos dos que foram saindo das zonas ocupadas de Donetsk, como Avdiivka ou Bakhmut, situada mais a leste, onde os combates prosseguem num raio de 10 a 15 quilómetros.
Bakhmut tornou-se um símbolo para ambas as partes na guerra. Ucranianos e russos empenharam aqui enormes recursos humanos com muitas baixas entre os soldados. Todos os relatos que vêm de Bakhmut utilizam adjetivos provavelmente incapazes de descrever a situação: catastrófica, assustadora, inumana, infernal.
Os russos pretendem avançar o mais possível na região de Donetsk. Os ucranianos fazem questão de resistir, mas consideram que deixar cair Bakhmut não é militarmente relevante para conter a ofensiva russa. Vários analistas militares sugerem que a Ucrânia está propositadamente a obrigar a Rússia a gastar muitos recursos numa pequena franja de território.
José Pedro Frazão, em serviço especial para a RFI, descreve a situação em que vivem os civis sujeitos aos efeitos dos combates nalgumas das cidades da linha da frente desta guerra.
por José Pedro Frazão / RFI
PROVÍNCIA DE DONETSK – Forças russas intensificaram nesta terça-feira sua campanha para cercar a cidade de Bakhmut, no leste da Ucrânia, onde o comandante das forças terrestres ucranianas descreveu a situação como “extremamente tensa”.
As forças russas, incluindo combatentes mercenários do Grupo Wagner, estão tentando cortar as linhas de abastecimento dos defensores ucranianos para a cidade, cenário de algumas das batalhas mais sangrentas da guerra, e forçá-los a se render ou se retirar.
Isso daria à Rússia sua primeira grande conquista em mais de meio ano e abriria caminho para a captura dos últimos centros urbanos remanescentes na região de Donetsk, que Moscou afirma ter anexado junto com outras três regiões ucranianas.
“Apesar das perdas significativas, o inimigo lançou as unidades mais preparadas da Wagner, que estão tentando romper as defesas de nossas tropas e cercar a cidade”, disse o coronel-general Oleksandr Syrskyi da Ucrânia em uma plataforma de mensagens militares.
A agência de notícias russa RIA divulgou um vídeo que disse mostrar caças russos Su-25 voando sobre Bakhmut. “Estamos felizes por eles serem nossos”, disse um homem no clipe identificado como um combatente de Wagner, acrescentando que os jatos os ajudaram “psicologicamente”.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskiy, que descreveu Bakhmut como “nossa fortaleza” que precisa ser defendida até o fim, afirmou em seu discurso de rádio noturno que as forças russas “estão constantemente destruindo tudo o que pode ser usado para proteger nossas posições de fortificação e defesa”.
Os militares da Ucrânia disseram que a Rússia também estava bombardeando assentamentos em torno de Bakhmut, que tinha uma população pré-guerra de cerca de 70.000, mas agora está em ruínas após meses de intensa guerra de trincheiras.
“No último dia, nossos soldados repeliram mais de 60 ataques inimigos”, disseram os militares no início da terça-feira, referindo-se a Bakhmut e áreas próximas do leste, acrescentando que as forças ucranianas repeliram os ataques russos às vilas de Yadhidne e Berkhivka, nas proximidades ao norte de Bakhmut.
O analista militar ucraniano Oleh Zhdanov disse que as forças russas abriram uma barreira entre essas vilas.
“A parte sul de Bakhmut é a única área que pode ser descrita como sob controle ucraniano. Em todos os outros distritos, a situação é imprevisível… É impossível dizer onde está a linha de frente”, declarou ele em um comentário em vídeo.
YELLEN EM KIEV
A secretária do Tesouro dos Estados Unidos, Janet Yellen, tornou-se a mais recente autoridade ocidental graduada a visitar a capital ucraniana, prometendo assistência e mais medidas para isolar a Rússia após reuniões com Zelenskiy e outras autoridades.
O chefe dela, o presidente norte-americano, Joe Biden, foi lá há uma semana para marcar o primeiro aniversário da invasão da Ucrânia pela Rússia.
“A América ficará com a Ucrânia o tempo que for necessário”, disse Yellen ao primeiro-ministro ucraniano, Denys Shmyhal, na segunda-feira.
Por Leonardo Benassatto / REUTERS
UCRÂNIA - Em pronunciamento à população ucraniana na sexta-feira (24), dia em que a invasão russa completa um ano, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, afirmou que “derrotará todos” e que fará o possível para dar fim ao conflito em 2023.
“Somos fortes. Estamos preparados para tudo. Derrotaremos todos, porque somos a Ucrânia”, disse o ucraniano. “Nunca os perdoaremos. Nunca descansaremos até que os assassinos russos sejam punidos. Pelo tribunal internacional, pelo julgamento de Deus ou por nossos soldados.”, completou.
Ainda nesta sexta-feira, o ministro da Defesa da Ucrânia, Oleksii Reznikov, anunciou através do Facebook que prepara uma contraofensiva ao exército russo.
"Atacaremos com mais força e a partir de distâncias maiores, no ar, em terra, no mar e no ciberespaço. Nossa contraofensiva vai acontecer. Estamos trabalhando duro para prepará-la”, escreveu.
UCRÂNIA - A história do mundo é praticamente indistinguível da história da guerra. Após um hiato de 75 anos em que as nações desenvolvidas evitaram confrontos, a guerra voltou à Europa, o crisol das duas guerras mundiais. Vai esta guerra humilhar Vladimir Putin e desencorajar outros agressores, forjando uma nova paz? Ou intensificará os atritos entre potências, consolidando uma nova guerra fria que pode escalar para uma guerra quente e finalmente uma nova guerra mundial?
Em favor da primeira opção, o assalto de Putin produziu o inverso de seu intento inicial: o mito do poderio russo desmoronou; as nações ocidentais reagiram com uma solidariedade sem precedentes, galvanizaram a Otan e isolaram como nunca a Rússia; os ucranianos estão mais inclinados a integrar o Ocidente e fortalecer sua democracia, e sua contraofensiva recuperou amplos pedaços de seu território.
Por outro lado, se o desempenho do exército russo foi pior do que o esperado, o de sua economia foi melhor. Suas exportações foram canalizadas para grandes mercados como China, Índia e outros na Ásia, África e América Latina. Já a economia ucraniana agoniza e depende de um Ocidente que dá sinais de dissensos sobre até onde deve manter seu apoio. O tempo está a favor da Rússia.
Como já dissemos nesta página em junho do ano passado: “Idealmente, Ucrânia e Rússia estariam provendo o mundo com energia e alimento abundantes. A Ucrânia seria uma ponte entre a Europa e a Rússia, a qual seria uma ponte entre o Ocidente, a China e o Oriente, em um mundo seguro e economicamente aberto. Mas esse ideal de paz, justiça e prosperidade nunca esteve tão distante”. Hoje, está ainda mais.
Idealmente, o conflito deveria terminar com paz e justiça. Mas essa combinação é impraticável por uma dissonância entre o poder e a legitimidade: as ambições de Putin são ilegítimas, mas ele tem poder para ferir a Ucrânia e ameaçar o mundo. Se a platitude esposada por muitos, como o presidente Lula, de que “quando um não quer, dois não brigam”, é equivocada ante uma invasão criminosa, o fato é que uma guerra só termina quando as duas partes querem. E não há sinal dessa disposição por parte da Rússia – e tampouco da Ucrânia, que, a exemplo do que faria qualquer país soberano, não aceitará passivamente a pilhagem de seu território por um regime delinquente.
Há um limite nos objetivos dos adversários dos russos: assegurar a soberania e a democracia da Ucrânia e restaurar as fronteiras pré-2022 – no máximo as de 1991. Os objetivos de Putin são ilimitados: retomar a Ucrânia e outras partes do império russo. Ele está mobilizando a Rússia para um confronto civilizacional contra o Ocidente que pode durar toda uma geração. Para tanto, busca o apoio da China e conta com o esmorecimento da resolução ocidental – meta que poderia ser atingida com uma eventual eleição de Donald Trump em 2024.
O Ocidente precisa se preparar para essa guerra longa, de imediato fornecendo mais armas para que a Ucrânia ganhe posições na batalha. Com tanques e eventualmente caças, isso é possível. Ainda assim, será preciso se preparar para as retaliações de Putin. Isso implica modernizar arsenais para dissuadi-lo de uma escalada e concertar meios de financiar e armar a Ucrânia para garantir sua resiliência, eventualmente integrando-a à União Europeia e mesmo à Otan. Mais do que isso, terá de vencer a batalha da opinião pública em seus países e no mundo. A resiliência ocidental pode afinal virar a mesa, levando o povo russo a se dar conta de que não pode vencer a guerra e a forçar o Kremlin a uma solução de compromisso.
Os dilemas atuais foram resumidos por Henry Kissinger: “A busca pela paz e a ordem tem dois componentes que são por vezes tratados como contraditórios: a busca de elementos de segurança e a exigência de atos de reconciliação. Se não pudermos conquistar ambos, não atingiremos nenhum”. Manter o equilíbrio desses elementos, balanceando a força e a diplomacia, é crucial neste momento em que o mundo está numa posição equidistante e volátil entre uma nova paz e uma nova guerra mundial.
por Notas & Informações
UCRÂNIA - O diretor dos serviços secretos militares ucranianos afirmou ontem, 22, na edição ucraniana da revista Forbes, que Moscovo já iniciou a esperada "grande ofensiva" no leste da Ucrânia, mas faltam-lhe mísseis e munições para alcançar os seus objetivos estratégicos.
"A grande ofensiva que eles têm em mente já está em marcha", declarou Kyrylo Budanov, apesar de esta ser, acrescentou, pouco percetível devido às carências em matéria de armamento e de munições das forças russas.
Segundo o responsável máximo dos serviços secretos militares ucranianos, "o objetivo estratégico de Moscovo é chegar antes de 31 de março às fronteiras administrativas das regiões de Lugansk e Donetsk", dois territórios do leste da Ucrânia que a Rússia parcialmente ocupa e nos quais decorrem os combates mais intensos.
Budanov mostrou-se convicto de que o Kremlin não tem condições para cumprir tal objetivo, dado o ritmo acelerado a que está a esgotar munições e mísseis e ao pouco treino dos novos soldados que mobilizou.
Segundo o responsável, nem a produção da indústria armamentista russa nem as importações iranianas têm capacidade para compensar o desperdício de armamento e munições sofrido pela Rússia em batalhas como a que atualmente se trava pelo controlo da cidade de Bakhmut, na região de Donetsk.
A ofensiva militar lançada a 24 de fevereiro de 2022 pela Rússia na Ucrânia causou até agora a fuga de mais de 14 milhões de pessoas -- 6,5 milhões de deslocados internos e mais de oito milhões para países europeus -, de acordo com os mais recentes dados da ONU, que classifica esta crise de refugiados como a pior na Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Neste momento, pelo menos 17,7 milhões de ucranianos precisam de ajuda humanitária e 9,3 milhões necessitam de ajuda alimentar e alojamento.
A invasão russa -- justificada pelo Presidente russo, Vladimir Putin, com a necessidade de "desnazificar" e desmilitarizar a Ucrânia para segurança da Rússia - foi condenada pela generalidade da comunidade internacional, que tem respondido com envio de armamento para a Ucrânia e imposição à Rússia de sanções políticas e económicas.
A ONU apresentou como confirmados desde o início da guerra, que hoje entrou no seu 364.º dia, 7.199 civis mortos e 11.756 feridos, sublinhando que estes números estão muito aquém dos reais.
LUSA
RÚSSIA - A Rússia acusou de crimes de guerra 680 funcionários da segurança ucraniana, comandantes das Forças Armadas e dirigentes do ministério da Defesa, disse o presidente do Comité de Investigação da Rússia, numa entrevista publicada hoje pela imprensa russa.
"Atualmente, 680 pessoas estão a ser processadas. Foram também determinadas medidas para acusar 403 pessoas (...)", declarou Alexander Bastrikin numa entrevista divulgada hoje pela agência de notícias oficial TASS.
De acordo com Bastrikin, entre os acusados de usar meios e métodos de guerra proibidos estão 118 pessoas que são comandantes e líderes das Forças Armadas da Ucrânia e do Ministério da Defesa da Ucrânia.
O presidente do Comité de Investigação da Rússia - subordinado diretamente ao Kremlin - sublinhou que para 136 pessoas foi decretada a detenção à revelia.
Segundo Bastrikin, as ações das forças de segurança ucranianas estão a ser criminalizadas com base no artigo do Código Penal da Federação Russa sobre o uso de armas com propriedades altamente lesivas contra a população civil, incluindo aquelas com ogivas de fragmentação.
Este artigo prevê igualmente a responsabilidade "por maus-tratos à população civil".
O Comité de Investigação da Rússia abriu também mais de 150 processos criminais por informações que "desacreditam" as Forças Armadas russas desde o início da guerra na Ucrânia, há quase um ano, e acusou 136 pessoas no âmbito de este tipo de crime.
"Foram iniciadas 152 acusações criminais, das quais foram processadas 136 pessoas (...)", disse Bastrikin à TASS, acrescentando que "16 sentenças já foram proferidas".
por Lusa
UCRÂNIA - O presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskiy, disse nesta sexta-feira que é "óbvio" que a Ucrânia não será a última parada da invasão do presidente russo, Vladimir Putin, e que é vital que o Ocidente não atrase as entregas de armas para ajudar a repelir as forças russas.
O líder ucraniano afirmou à Conferência de Segurança de Munique por videoconferência que, enquanto o Ocidente negociava o fornecimento de tanques para Kiev, o Kremlin pensava em maneiras de "estrangular" a ex-república soviética da Moldávia, que fica a oeste da Ucrânia.
"É óbvio que a Ucrânia não será sua última parada. Ele continuará seu movimento por todo caminho... incluindo todos os outros Estados que em algum momento fizeram parte do bloco soviético", disse Zelenskiy.
Ele instou o Ocidente a manter entregas rápidas de armas.
"Atrasar sempre foi e ainda é um erro", declarou Zelenskiy.
Ele fez seus comentários iniciais em inglês ao discursar na conferência de segurança, uma reunião anual de políticos, autoridades militares e diplomatas, dias antes de a Ucrânia marcar o primeiro aniversário da invasão em grande escala da Rússia em 2022.
Apesar de seus alertas, Zelenskiy disse que não achava que a Rússia pudesse vencer.
Ele comparou a Ucrânia a Davi e a Rússia a Golias no conto bíblico em que o oprimido Davi vence. Ele afirmou que Davi derrotou Golias pela ação, e não pela conversa, e que Golias "não tem chances".
"Precisamos da velocidade, velocidade de nossos acordos, velocidade de entrega... velocidade de decisões para limitar o potencial russo", disse ele.
Reportagem de Max Hunder / REUTERS
UCRÂNIA - Rússia voltou hoje,16, a bombardear a Ucrânia, com o lançamento de 36 mísseis, dos quais 16 foram destruídos pela defesa antiaérea, disseram as autoridades ucranianas.
O chefe do gabinete presidencial da Ucrânia disse que os alvos tinham sido atingidos no norte, oeste e sul do país.
Uma mulher de 79 anos morreu e pelo menos sete outras pessoas ficaram feridas quando os mísseis atingiram a cidade de Pavlohrad, informou o governador local, Serhiy Lysak.
A ofensiva militar russa no território ucraniano, lançada a 24 de fevereiro do ano passado, mergulhou a Europa naquela que é considerada a crise de segurança mais grave desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
por Lusa
UCRÂNIA - Frente à ameaça de uma nova ocupação russa de Kupiansk, no leste da Ucrânia, Galena decidiu ir embora: colocou tudo que tinha em duas grandes sacolas de plástico e esperou o ônibus para encontrar sua filha em Kharkiv, no nordeste do país.
"São três horas de ônibus. Quero ir para lá para ficar a salvo", disse à AFP essa mulher de 62 anos, em um ponto de ônibus em frente a uma igreja.
"Vivi aqui durante a ocupação russa e tenho medo de outro ataque", acrescentou.
Kupiansk, que antes da guerra tinha cerca de 30 mil habitantes, foi ocupada pelos russos nos primeiros dias da invasão, há um ano. Os ucranianos retomaram à localidade em setembro, após uma contraofensiva relâmpago.
Vários dias depois, porém, as tropas de Moscou, reforçadas com a mobilização de centenas de milhares de reservistas, voltaram ao ataque naquele setor, despertando o medo em seus habitantes.
Com o Exército russo a apenas 15 quilômetros a nordeste, as forças ucranianas estão em alerta.
Os tanques rugem pela cidade com um estrondo metálico, enquanto os soldados erguem postos de controle e revistam os passageiros de cada veículo que se aproxima.
Há bandeiras ucranianas penduradas nos faróis ao longo do eixo principal da cidade. Por toda parte, há sinais de combates passados: prédios destruídos, ou com marcas de balas, restos carbonizados de veículos caídos aqui e ali.
"Todo o mundo está falando de um novo ataque russo", disse Olga, de 62 anos, ao descrever os ataques russos que atingem a cidade com frequência.
“Houve bombardeios na frente da minha casa que quebraram as janelas. Há explosões todos os dias, dá muito medo”, afirmou.
Olga continua na aldeia, porque seu filho Andrei, de 37 anos, tem deficiência e precisa de cuidados especiais.
- "Não é vida" -
Além da violência e do medo de um retorno dos ocupantes russos, os habitantes que permanecem em Kupiansk devem lidar com problemas cotidianos.
Os terminais de pagamento digital não funcionam nas lojas, o que obriga os moradores a sacarem dinheiro nos caixas eletrônicos. Como apenas dois deles estão funcionando na cidade, longas filas se formam.
Oleksandre Timochenko, de 47 anos, relembra a ocupação russa: "Havia postos de controle por toda parte, não deixavam você sair".
Ele explicou que há tensões entre os habitantes que não querem o retorno dos russos e os que não seriam contra. Em Kupiansk, "muitas pessoas apoiam a Rússia", afirmou.
Apesar de tudo, ele diz estar confiante na capacidade das forças ucranianas de repelirem qualquer ataque russo à cidade.
"Falei com os soldados e eles dizem que não estão preocupados. A situação está sob controle", disse.
"Há bombardeios de vez em quando, mas estão bem", acrescentou, com otimismo.
Ainda assim, Victoria Garnaia, de 45 anos, não quer correr riscos. Ela deixou Kupiansk para se instalar em Kharkiv com seu filho de 13 anos. Voltou apenas porque sua mãe havia morrido dois dias antes.
Lutando contra as lágrimas, ela conta que seu marido e seu pai ainda moram em Kupiansk, mas já fizeram as malas e estão prontos para deixar a cidade, se os russos se aproximarem.
"Isso não é vida", lamenta.
"Quando você constrói uma casa, você junta muitas coisas e depois sai com apenas algumas sacolas", desabafa.
RÚSSIA - “Tomei a decisão de realizar uma operação militar especial”. Com estas palavras, o presidente russo, Vladimir Putin, inicia, em 24 de fevereiro de 2022, a invasão da vizinha, Ucrânia, desencadeando o pior conflito no continente europeu desde a Segunda Guerra Mundial.
Em um contexto de tensões crescentes com o Ocidente, o presidente russo lança as hostilidades pouco antes das 06h locais (00h de Brasília), com um anúncio surpresa pela televisão.
O objetivo é a “desmilitarização e desnazificação da Ucrânia”, afirma, em um tom duro, o chefe do Kremlin, reiterando as acusações infundadas de um “genocídio” orquestrado pela Ucrânia no leste russófono do país e denunciando uma política “agressiva” da Otan.
Dois dias antes, Putin havia declarado a “independência” de territórios separatistas ucranianos no Donbass, que Kiev combate com armas desde 2014.
O presidente russo ameaça o Ocidente com “consequências nunca vistas” em caso de interferência.
– “Invasão de grande amplitude” –
Fortes explosões são ouvidas nos céus da ex-república soviética. Os ataques têm como alvo a capital, Kiev, Kramatorsk (quartel-general do exército ucraniano no leste) e Kharkiv, a segunda maior cidade do país, situada perto da fronteira russa. Também em Odessa, na costa do Mar Morto, e Mariupol, o principal porto.
De uma ponta a outra do país ouvem-se sirenes de alertas aéreos.
O ministro ucraniano das Relações Exteriores, Dmytro Kuleba, denuncia o início de uma “invasão de grande amplitude”.
Desde o amanhecer, os ucranianos se aglomeram no metrô de Kiev, transformado em abrigo. “Acordei com o barulho das bombas. Arrumei umas sacolas e parti”, contou à AFP Maria Kashkoska, de 29 anos, encolhida, em estado de choque.
O presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, promete “vencer”, proclama a lei marcial e pede, em um vídeo no Facebook, que seus 40 milhões de concidadãos “não entrem em pânico”.
– Às portas de Kiev –
Na primeira hora da manhã, blindados russos entram em solo ucraniano pelo norte – vindos de Belarus, aliada de Moscou -, sul e leste.
Com uma “superioridade aérea total” sobre a Ucrânia – limitada em recursos antiaéreos apesar da crescente ajuda militar do Ocidente -, o exército russo avança rumo a Kiev, onde se impõe um toque de recolher.
A Rússia quer “decapitar o governo ucraniano” e instalar dirigentes favoráveis a Moscou, segundo análise de fontes militares ocidentais.
Forças russas transportadas de helicóptero atacam o aeroporto militar de Gostomel, às portas da capital ucraniana.
Com o passar das horas, tropas procedentes da península ucraniana da Crimeia – anexada em 2014 por Putin – avançam no sul e tomam o controle de Genishesky, na região de Kherson.
No nordeste, ocorrem violentos combates em Kharkiv, aonde chegam paraquedistas russos.
“Não achei que isto fosse acontecer enquanto estivesse viva”, disse à AFP Olena Kurilo, de 52 anos, o rosto coberto por vendas, devido aos ferimentos sofridos em um ataque. “Farei tudo pela Ucrânia, tanto quanto puder”, assegurou esta professora de Chuhuiv, perto de Kharkiv.
– Putin, “pária” internacional –
Críticas chovem nos países ocidentais.
O presidente americano, Joe Biden, anuncia um arsenal de sanções econômicas e financeiras com o objetivo de transformar o líder do Kremlin em “um pária no cenário internacional”.
Os Estados Unidos, diz Biden em tono solene, vão defender “a menor polegada de território da Otan”, mas não vão enviar tropas à Ucrânia, que não é membro da Aliança Atlântica. O Pentágono anuncia o envio de 7.000 soldados adicionais à Alemanha, elevando a 90.000 o número de militares americanos na Europa.
As Forças Armadas dos países da Otan são colocadas em prontidão.
Dirigentes da União Europeia (UE) adotam sanções financeiras “maciças” contra a Rússia.
A China, rara voz dissonante e que mantém vínculos estreitos com Moscou, diz “entender as preocupações” da Rússia.
– Zelensky, o comandante-em-chefe –
À noite, a Ucrânia denuncia que a usina nuclear de Chernobyl, perto de Belarus, cenário do pior acidente nuclear da história, em 1986, caiu nas mãos dos invasores.
A Rússia afirma ter destruído mais de 70 instalações militares, entre elas 11 aeródromos. A Ucrânia diz ter derrubado cinco aviões russos e um helicóptero.
Ao final deste primeiro dia de guerra, Volodimir Zelensky lamenta a morte de “137 heróis” ucranianos e decreta mobilização militar.
O presidente apresenta seu país como o “escudo da Europa” frente à Rússia e aponta para a falta de ajuda de seus aliados ocidentais. “Quem está pronto para lutar conosco? Não vejo ninguém”, diz, lamentando a recusa da Otan de enviar tropas à Ucrânia.
Assumindo o papel de comandante-em-chefe, usando roupas militares, o ex-comediante de 44 anos jura que permanecerá na capital com seu governo e inicia, assim, um poderoso movimento de resistência militar.
– Pânico nos mercados –
As bolsas europeias caem até 5% e os preços das commodities disparam. Os investidores se preocupam com possíveis interrupções no fornecimento de gás e petróleo, dos quais a Rússia é um os principais produtores.
Os temores com as exportações russas e ucranianas fazem os preços do trigo dispararem em um nível inédito.
– Fluxo de refugiados –
A ofensiva russa força cerca de 100.000 ucranianos a deixarem suas casas. Vários milhares correm para as fronteiras da UE, especialmente com Polônia, Hungria e Romênia.
O conflito provoca o êxodo mais rápido desde a Segunda Guerra Mundial.
O post Em 24 de fevereiro de 2022, a Rússia de Vladimir Putin invade a Ucrânia apareceu primeiro em ISTOÉ Independente.
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