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Notícia publicada pelo “Jornal da USP”, em edição com data de 14 de outubro, informa que a USP mantém a liderança entre as instituições brasileiras no levantamento da “Universidade de Stanford” (2025), apontando que que 284 pesquisadores da Universidade estão entre os mais citados do mundo.

 

SÃO CARLOS/SP - A USP conta com 284 pesquisadores na 9ª edição da base internacional Updated science-wide author databases of standardized citation indicators, elaborada anualmente pelo pesquisador John P. A. Ioannidis, da Universidade Stanford.

Publicada no dia 7 de outubro, a nova versão avalia o impacto científico a partir das citações recebidas ao longo de 2025. A Universidade permanece à frente das instituições brasileiras incluídas no levantamento, concentrando 18,8% dos cientistas do País na lista de impacto anual.

No conjunto, o Brasil soma 1.510 perfis nessa relação, ante 1.461 na edição anterior, um crescimento de cerca de 3,4%.

A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) aparece com 105 pesquisadores, seguida pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), com 87. Juntas, as três universidades estaduais paulistas reúnem 476 nomes, o que representa 31,5% do total nacional.

Na sequência vêm a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), com 64 nomes, enquanto a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) têm 63 cada. Já a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) contam com 35 pesquisadores cada.

Na USP, a maior concentração está no campo de Medicina Clínica, que reúne 129 dos 284 pesquisadores identificados na avaliação anual. Em seguida estão Biologia, com 26 nomes; Química, com 25; Agricultura, Pesca e Florestas, com 24; e Pesquisa Biomédica, com 21. Entre as subáreas específicas, Odontologia reúne 19 pesquisadores, seguida por Sistema Cardiovascular e Hematologia, com 13, e Química Analítica, com 11. Psiquiatria, Neurologia e Neurocirurgia, e Agronomia e Agricultura figuram com nove pesquisadores cada, enquanto Imunologia soma oito nomes, seguida por Química Medicinal e Biomolecular, Entomologia e Biotecnologia, com sete cada.

Em uma segunda tabela divulgada pelo estudo, que mede o impacto acumulado pelos cientistas ao longo de toda a carreira até o fim de 2025, a USP também lidera no País, com 267 pesquisadores entre os 1.304 brasileiros selecionados (20,5% do total nacional), sendo que 154 cientistas da Universidade aparecem simultaneamente em ambas as listas. A instituição é seguida por Unicamp (99), UFRJ (74), Unesp (60), UFRGS (56), UFMG (54), Fiocruz (43) e Unifesp (34).  Nesse recorte histórico, a subárea com mais representantes na USP é a de Energia, com 19 nomes, à frente de Odontologia (14), Química Analítica (12) e Biotecnologia (11). Somando os nomes que aparecem na lista anual e na de carreira (154 deles presentes em ambas), a Universidade tem, ao todo, 397 pesquisadores distintos reconhecidos nesta edição.

Do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP) encontram-se mencionados os seguintes pesquisadores:

Paulo Augusto Raymundo-Pereira;

Valtencir Zucolotto;

Valmor Roberto Mastelaro;

Antonio Ricardo Zanatta;

Osvaldo Novais de Oliveira Junior;

Helmutt Eckert (ex-docente e pesquisador do IFSC/USP);

Luciano da Fontoura Costa;

Adriano Defini Andricopulo;

Cleber Renato Mendonça;

Confira no link, as listagens gerais completas - https://elsevier.digitalcommonsdata.com/datasets/btchxktzyw/9

(Notícia com base em original do “Jornal da USP”)

SÃO CARLOS/SP - Em cerimônia realizada na Universidade de São Paulo, o docente do IFSC/USP), Prof. Dr. Antônio Carlos Hernandes, assumiu a presidência da Academia de Ciências do Estado de São Paulo (ACIESP), defendendo a valorização do conhecimento científico, o fortalecimento da educação e uma participação mais efetiva da ciência nas decisões que determinam o futuro do País.

A ciência brasileira enfrenta desafios que ultrapassam os limites dos laboratórios, das universidades e dos centros de pesquisa. Num mundo marcado pela velocidade da informação, pelo avanço da inteligência artificial e pela crescente disseminação de notícias falsas, aproximar o conhecimento científico da sociedade tornou-se uma necessidade cada vez mais urgente. Foi precisamente esta preocupação que marcou a cerimônia de posse da nova diretoria e do Conselho Diretor da ACIESP, realizada no dia 9 de outubro, no Auditório da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, na Universidade de São Paulo (USP).

O encontro reuniu importantes representantes da comunidade científica e acadêmica brasileira, numa cerimônia que assinalou não apenas a renovação da direção da entidade, mas também a reafirmação do papel que a ciência deve desempenhar no desenvolvimento econômico, social e tecnológico do Brasil.

O Prof. Dr. Antônio Carlos Hernandes assumiu a presidência da ACIESP, sucedendo ao docente do IFSC/USP), Prof. Dr. Adriano Andricopulo, responsável pela condução da instituição durante o período de 2023 a 2026. A nova diretoria conta ainda com a Profª Drª Vanderlan da Silva Bolzani, na vice-presidência, o Prof. Dr. Paulo César Vieira, como diretor executivo, e a Profª Drª Maria de Fátima das Graças Fernandes da Silva, na direção financeira.

A solenidade teve início com uma apresentação do quarteto de cordas da Orquestra de Câmara da Escola de Comunicações e Artes da USP, seguindo-se os pronunciamentos das autoridades e os atos de transmissão da presidência e posse dos novos dirigentes.

Uma academia que nasceu em São Carlos

A história da ACIESP possui uma ligação particularmente significativa com a cidade de São Carlos, reconhecida nacionalmente pela sua vocação científica e tecnológica.

Foi precisamente em São Carlos, no dia 8 de outubro de 1974, que um grupo de pesquisadores deu início à trajetória da Academia de Ciências do Estado de São Paulo. Passados 52 anos, a instituição continua a reunir cientistas de reconhecida competência, contribuindo para a valorização da pesquisa e para o fortalecimento das instituições científicas paulistas.

Ao recordar essa origem, o novo presidente destacou que a renovação da diretoria representa também uma oportunidade para reafirmar os princípios que orientam a atuação da Academia: a excelência científica, a responsabilidade institucional e, sobretudo, o compromisso de fazer com que o conhecimento produzido pelos pesquisadores alcance efetivamente a população.

A referência à fundação da ACIESP em São Carlos reveste-se de especial importância, considerando a contribuição histórica das instituições de ensino e pesquisa instaladas na cidade para o desenvolvimento científico brasileiro.

Antônio Carlos Hernandes defende ciência mais próxima da população

No seu discurso de posse, Antônio Carlos Hernandes reconheceu a extraordinária capacidade científica do Estado de São Paulo, sustentada por universidades de excelência, institutos de pesquisa, centros de inovação e uma comunidade de pesquisadores que atua nas mais diferentes áreas do conhecimento.

Entretanto, advertiu que essa capacidade convive com problemas que exigem respostas urgentes, particularmente aqueles relacionados com a circulação de informações falsas e com a perda de confiança da sociedade no conhecimento científico.

Para o novo presidente “O combate à desinformação deverá constituir uma das prioridades da ACIESP nos próximos anos. A propagação de informações falsas sobre a vacinação,  por exemplo, demonstra que conquistas científicas construídas ao longo de décadas podem ser comprometidas quando a população deixa de confiar nas evidências produzidas pela investigação científica”.

Hernandes salientou, contudo, que “Enfrentar a desinformação não significa exigir uma confiança incondicional nos cientistas. Pelo contrário, implica explicar à população como o conhecimento é produzido, reconhecer as incertezas próprias da investigação e estabelecer um diálogo permanente com a sociedade”.

Entre as prioridades anunciadas para a nova gestão estão o fortalecimento da educação e da divulgação científica, a articulação entre pesquisadores e instituições e a elaboração de documentos independentes, fundamentados em evidências, capazes de contribuir para a formulação de políticas públicas.

A Academia pretende igualmente ampliar a discussão sobre questões que deverão marcar as próximas décadas, incluindo as mudanças climáticas, o envelhecimento da população, a inteligência artificial, a energia, os novos materiais, a saúde e as transformações no mundo do trabalho.

Ao concluir o seu pronunciamento, Hernandes sintetizou a dimensão dessa responsabilidade numa afirmação particularmente significativa: “O futuro não será construído apenas pela ciência, mas será muito difícil construí-lo sem ela”, afirmou.

Helena Nader alerta para os riscos dos cortes na educação e na pesquisa

Um dos pronunciamentos mais contundentes da cerimônia foi proferido pela presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), professora Helena Nader, que manifestou preocupação com os desafios enfrentados pela ciência brasileira e com as consequências das políticas que reduzem os investimentos na educação e na investigação científica.

Na sua intervenção, Nader destacou que a capacidade científica alcançada pelo Estado de São Paulo não surgiu por acaso, mas resulta de décadas de investimentos públicos continuados nas universidades, nas instituições de pesquisa e nas agências de financiamento, particularmente a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).

A presidente da ABC criticou a visão que considera os recursos destinados à ciência e à educação como despesas, em vez de investimentos estratégicos para o desenvolvimento nacional.

Advertiu ainda que a desvalorização dessas áreas compromete não apenas a competitividade econômica, mas também a soberania tecnológica e a própria qualidade da democracia.

Na sua avaliação “Um país que não produz conhecimento e depende permanentemente de tecnologias desenvolvidas no exterior acaba por perder autonomia nas decisões que condicionam o seu futuro”.

Helena Nader relacionou igualmente a fragilização da educação com o crescimento da desinformação e com as dificuldades de formação de cidadãos capazes de distinguir fatos de opiniões e evidências de manipulações.

Para a cientista, a missão da nova diretoria da ACIESP ultrapassa a preservação da excelência acadêmica. É necessário garantir que a comunidade científica tenha participação efetiva nos espaços onde são tomadas as decisões políticas e administrativas, seja no âmbito municipal, estadual ou nacional.

Inteligência artificial representa novo desafio para a ciência

A importância crescente da inteligência artificial foi outro dos temas abordados durante a solenidade.

O secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo, professor Vahan Agopyan, destacou a trajetória da ACIESP e o reconhecimento conquistado pela instituição ao longo de mais de cinco décadas.

Ao comentar os desafios tecnológicos contemporâneos, Agopyan chamou a atenção para a necessidade de compreender os impactos da inteligência artificial, uma ferramenta poderosa, mas que também apresenta riscos significativos. Na sua perspectiva “A comunidade científica deverá participar ativamente da discussão sobre a utilização responsável dessas tecnologias, procurando assegurar que os seus benefícios sejam efetivamente colocados ao serviço da sociedade”.

O secretário salientou que São Paulo dispõe de um ambiente favorável à ciência, à tecnologia e à inovação, mas advertiu que os desafios futuros exigirão preparação, capacidade de adaptação e uma atuação coordenada entre as instituições científicas e os responsáveis pelas políticas públicas.

Universidade e sociedade precisam caminhar juntas

Representando a Universidade de São Paulo, a professora Liedi Légi Bariani Bernucci, vice-reitora, destacou a importância de tornar mais visível o trabalho desenvolvido nas universidades e nos institutos de pesquisa.

Segundo a docente, embora as instituições acadêmicas e as agências de financiamento desempenhem um papel fundamental no apoio à ciência básica, aplicada e à inovação, permanece o desafio de demonstrar à sociedade a importância concreta desse trabalho.

A aproximação entre pesquisadores e população, especialmente entre os mais jovens, constitui uma condição essencial para fortalecer a valorização social da ciência e enfrentar os movimentos de desinformação.

Nesse contexto, a vice-reitora reconheceu o papel desempenhado por instituições como a ACIESP e a Academia Brasileira de Ciências na divulgação do conhecimento e na defesa da atividade científica.

A cerimônia contou ainda com a presença do presidente da FAPESP, professor Marco Antônio Zago, além de representantes de universidades, instituições de pesquisa e entidades ligadas à ciência e à tecnologia.

Um novo ciclo para a ciência paulista

A posse da nova diretoria da ACIESP acontece num momento em que a produção de conhecimento científico assume importância decisiva para enfrentar problemas que afetam diretamente a vida da população.

Questões relacionadas com a saúde pública, o ambiente, a produção de energia, a transformação digital e o desenvolvimento econômico exigem respostas cada vez mais fundamentadas na investigação científica.

Mas a mensagem central transmitida durante a cerimônia foi igualmente clara: não basta produzir ciência de qualidade. É indispensável que esse conhecimento seja compreendido, valorizado e utilizado pela sociedade.

Ao iniciar um novo ciclo institucional, a Academia de Ciências do Estado de São Paulo assume, assim, o desafio de fortalecer a sua presença no debate público, ampliar a divulgação científica e contribuir para que as decisões que condicionam o futuro do País sejam orientadas pelo conhecimento e não pela desinformação.

Para São Carlos, cidade onde a Academia nasceu há 52 anos, esta renovação representa também a continuidade de uma história intimamente ligada à construção de um dos mais importantes ambientes científicos do Brasil.

Mais do que uma simples mudança de dirigentes, a cerimônia reafirmou uma convicção partilhada pelos participantes: investir em ciência, educação e tecnologia significa investir na autonomia, no desenvolvimento e no futuro da sociedade brasileira.

Prof. Luiz Vitor de Souza Filho, presidente do Conselho Superior do Consórcio Cherenkov Telescope Array, esteve presente na cerimônia de inauguração de quatro gigantescos telescópios nas Ilhas Canárias, na Espanha. O empreendimento internacional permitirá investigar fenômenos cósmicos extremos, desvendar mistérios relacionados com buracos negros e matéria escura e observar acontecimentos ocorridos há bilhões de anos.

 

SÃO CARLOS/SP - A ciência mundial deu mais um importante passo na compreensão dos grandes mistérios do Universo. No dia 15 de outubro, o Observatório Roque de los Muchachos, localizado na ilha de La Palma, nas Ilhas Canárias (Espanha) foi palco de uma cerimônia que assinala um marco na história da astronomia contemporânea: a inauguração de um conjunto de quatro telescópios de grande porte, concebidos para observar alguns dos fenômenos mais energéticos e distantes do cosmos.

A cerimônia, que reuniu cerca de duzentos e cinquenta cientistas e representantes de importantes instituições de pesquisa de diversos países, contou com a presença do Prof. Luiz Vitor de Souza Filho, docente e pesquisador do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), integrante de duas importantes colaborações científicas internacionais — o Observatório Pierre Auger e o Cherenkov Telescope Array Observatory (CTAO). Atualmente, Luiz Vitor ocupa a presidência do Conselho Superior do Consórcio Cherenkov Telescope Array, além de exercer a função de assessor da Diretoria Científica da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

Sua participação na cerimônia assume especial significado, considerando as responsabilidades institucionais que desempenha num dos mais ambiciosos projetos científicos internacionais dedicados à investigação do Universo.

A inauguração dos equipamentos representa também um momento importante para a participação brasileira na ciência internacional, especialmente para São Carlos, cidade que abriga um dos mais importantes centros de pesquisa em física do país e cujos pesquisadores participam de iniciativas científicas de grande relevância mundial.

 

Quatro gigantescos telescópios para observar o invisível

Os novos equipamentos integram o chamado Large-Sized Telescope (LST), um conjunto de telescópios de grande porte que constitui uma das principais estruturas do CTAO, observatório internacional destinado a investigar os raios gama, uma forma extremamente energética de radiação produzida em alguns dos acontecimentos mais violentos do Universo.

Cada um dos quatro telescópios possui um refletor de vinte e três metros de diâmetro e está equipado com câmeras ultrarrápidas, capazes de registrar sinais luminosos extremamente breves e de intensidade muito reduzida.

Diferentemente dos telescópios convencionais, que observam diretamente a luz proveniente de estrelas, planetas e galáxias, esses instrumentos procuram identificar pequenos flashes luminosos produzidos na atmosfera terrestre quando raios gama de altíssima energia provenientes do espaço interagem com as partículas do ar.

Esse fenômeno, conhecido como “Radiação Cherenkov”, permite aos pesquisadores estudar indiretamente acontecimentos cósmicos que não poderiam ser observados com a mesma precisão pelos instrumentos tradicionais.

A sensibilidade dos novos telescópios permitirá identificar fontes de radiação extremamente distantes, investigar explosões cósmicas de curta duração e acompanhar alterações que ocorrem em regiões do Universo onde a matéria é submetida a condições físicas extremas.

O primeiro equipamento do conjunto, denominado LST-1, encontra-se em atividade experimental desde 2020 e já proporcionou resultados importantes, incluindo observações de pulsares — estrelas extremamente densas que emitem radiação de maneira periódica —, estudos de regiões centrais de galáxias distantes e o acompanhamento de intensas explosões de raios gama.

Agora, com a incorporação dos telescópios LST-2, LST-3 e LST-4, os pesquisadores poderão observar simultaneamente os mesmos fenômenos a partir de diferentes posições, obtendo informações muito mais precisas sobre a direção, a intensidade e a energia da radiação detectada.

Essa capacidade conjunta representa um avanço significativo em relação às observações realizadas com apenas um telescópio.

 

Uma viagem científica ao passado do Universo

Uma das perspectivas mais fascinantes proporcionadas por esses equipamentos está relacionada com a possibilidade de investigar acontecimentos ocorridos há aproximadamente 12 bilhões de anos, numa época em que o Universo tinha menos de dois bilhões de anos de existência.

Como a luz necessita de tempo para percorrer as enormes distâncias que separam as galáxias da Terra, observar objetos extremamente distantes significa, na prática, estudar o passado do próprio Universo.

Os novos telescópios poderão detectar sinais provenientes de fontes cósmicas muito remotas, oferecendo aos cientistas a possibilidade de compreender melhor como se comportavam os fenômenos de alta energia nas primeiras etapas da evolução cósmica.

Outro objetivo fundamental consiste em investigar os mecanismos responsáveis pela aceleração de partículas a energias extraordinárias, muito superiores às que podem ser alcançadas em grande parte dos aceleradores construídos pelo ser humano.

Entre os principais objetos de investigação encontram-se os buracos negros supermassivos, as estrelas de nêutrons e as explosões de raios gama, fenômenos que libertam enormes quantidades de energia e desafiam constantemente os conhecimentos atuais da Física.

As observações também poderão contribuir para pesquisas relacionadas com a matéria escura, componente ainda não identificado diretamente e que, segundo os modelos cosmológicos atuais, desempenha um papel fundamental na estrutura e evolução do Universo.

Embora os novos instrumentos não garantam, por si só, respostas definitivas para essas questões, deverão fornecer informações essenciais para testar teorias e desenvolver novas interpretações sobre o funcionamento do cosmos.

 

A importância da participação brasileira e do IFSC/USP

A presença do Prof. Luiz Vitor de Souza Filho na inauguração merece destaque não apenas pela sua condição de pesquisador do IFSC/USP, mas também pela posição de liderança que ocupa no Consórcio Cherenkov Telescope Array.

O consórcio reúne cientistas e instituições de diferentes países envolvidos na preparação e exploração científica do observatório, constituindo um importante espaço de colaboração internacional na área da astrofísica de altas energias.

A presidência do seu Conselho Superior coloca o pesquisador brasileiro numa posição institucional relevante dentro dessa estrutura de cooperação científica.

Sua participação nos experimentos Pierre Auger e CTAO também evidencia a continuidade de uma trajetória dedicada à investigação de fenômenos cósmicos de altíssima energia.

O Observatório Pierre Auger, localizado na Argentina, dedica-se ao estudo dos raios cósmicos de energias extremamente elevadas, enquanto o CTAO procura investigar o Universo por meio da detecção de raios gama. Embora utilizem métodos diferentes, os dois empreendimentos contribuem para esclarecer questões fundamentais relacionadas com a origem e o comportamento das partículas mais energéticas conhecidas.

Nesse contexto, a atuação de Luiz Vitor representa uma importante ligação entre a pesquisa científica desenvolvida no Brasil e algumas das maiores iniciativas internacionais da astrofísica contemporânea.

Para o IFSC/USP, essa participação constitui mais um exemplo da dimensão internacional das atividades científicas realizadas em São Carlos, particularmente numa área do conhecimento que exige equipamentos sofisticados, investimentos expressivos e a cooperação permanente entre pesquisadores de diferentes nacionalidades.

Trata-se, igualmente, de uma demonstração da importância de manter e fortalecer a presença brasileira em projetos científicos de grande escala, permitindo que instituições e pesquisadores do país participem diretamente dos avanços tecnológicos e das descobertas que poderão transformar o conhecimento sobre o Universo.

 

Um observatório com mais de 60 telescópios

O conjunto, inaugurado em La Palma, integra uma infraestrutura científica ainda mais ampla.

O Cherenkov Telescope Array Observatory foi concebido para se tornar o maior e mais poderoso observatório terrestre dedicado à astronomia de raios gama, reunindo mais de 60 telescópios distribuídos por dois locais de observação.

No hemisfério Norte, os equipamentos estão instalados no Observatório Roque de los Muchachos, na Espanha. No hemisfério Sul, o projeto prevê instalações no Observatório Paranal, situado no Deserto do Atacama, no Chile.

Essa distribuição geográfica permitirá ampliar a cobertura do céu e observar diferentes regiões do Universo.

O observatório utilizará três categorias de telescópios — grandes, médios e pequenos —, cada uma desenvolvida para investigar diferentes faixas de energia.

O conjunto de instrumentos deverá proporcionar uma capacidade de observação sem precedentes, abrangendo desde fenômenos associados a fontes cósmicas distantes até acontecimentos de energia extremamente elevada.

Outro aspecto importante está relacionado com a quantidade de informações que será produzida. O CTAO deverá gerar enormes volumes de dados científicos, exigindo sistemas avançados de processamento, armazenamento e análise computacional.

O empreendimento também pretende adotar um modelo de ciência aberta, disponibilizando dados científicos e ferramentas de análise à comunidade de pesquisadores, ampliando as possibilidades de colaboração e de produção de novos conhecimentos.

 

A construção do observatório resulta de mais de quinze anos de cooperação internacional, envolvendo avanços tecnológicos em óptica, sistemas eletrônicos, detectores de luz e mecanismos de elevada precisão.

Para o Prof. Masahiro Teshima, pesquisador principal da Colaboração LST e porta-voz do Consórcio CTAO, a conclusão desse conjunto de telescópios representa o resultado de um longo trabalho coletivo de desenvolvimento científico e tecnológico.

 

Novas perspectivas para a ciência mundial

Embora a inauguração dos quatro telescópios represente uma conquista importante, os equipamentos ainda deverão passar por etapas de testes, ajustes e integração antes de atingirem plenamente a capacidade científica prevista.

A expectativa é que, progressivamente, os instrumentos ampliem as possibilidades de investigação sobre alguns dos fenômenos mais complexos da natureza.

Mais do que observar regiões distantes do espaço, o objetivo dos pesquisadores é compreender os processos físicos responsáveis pela produção de energias extraordinárias, investigar a origem dos raios cósmicos e procurar sinais que possam contribuir para esclarecer a natureza da matéria escura.

São questões que ultrapassam os limites da astronomia tradicional e envolvem diretamente a Física de partículas e a cosmologia, áreas fundamentais para compreender a origem, a composição e a evolução do Universo.

Para São Carlos e para o IFSC/USP, a presença de Luiz Vitor de Souza Filho nessa cerimônia internacional reforça a importância da participação brasileira nas grandes iniciativas científicas mundiais.

Ao integrar uma estrutura de liderança do Consórcio Cherenkov Telescope Array, o pesquisador contribui para a presença institucional do país num empreendimento que poderá protagonizar algumas das mais importantes descobertas da astrofísica nas próximas décadas.

A inauguração dos telescópios de La Palma simboliza, assim, não apenas a conclusão de uma etapa tecnológica, mas também o início de novas possibilidades para a investigação científica.

Afinal, quanto maior for a capacidade da humanidade de observar os fenômenos mais distantes e energéticos do cosmos, maiores serão também as oportunidades de encontrar respostas para perguntas que continuam a desafiar a ciência: como surgiram as estruturas do Universo, de onde provêm as partículas cósmicas mais energéticas e quais são, verdadeiramente, os mecanismos que governam os acontecimentos mais extremos da natureza.

Uma Nova Era na Exploração do Universo Extremo: Inauguração do Subconjunto de Telescópios de Grande Porte no CTAO-Norte La Palma (Espanha)

Uma Nova Era na Exploração do Universo Extremo

 

EMBARGO - 15 de outubro de 2026.

Duzentos e cinquenta cientistas e representantes de importantes instituições de pesquisa de todo o mundo celebraram a inauguração do subconjunto de Telescópios de Grande Porte (LSTs) no sítio CTAO-Norte, no Observatório Roque de los Muchachos, em La Palma, Ilhas Canárias - Espanha.

A conclusão dos quatro telescópios marca um marco significativo para a comunidade global de astrofísica e representa um passo crucial rumo à operação científica plena do Observatório Cherenkov Telescope Array (CTAO).

Cada telescópio possui um refletor de 23 metros de diâmetro e está equipado com câmeras ultrarrápidas de última geração.

Projetados para detectar os tênues flashes de luz Cherenkov gerados quando raios gama de altíssima energia interagem com a atmosfera terrestre, os LSTs são os instrumentos mais sensíveis do mundo para a observação de raios gama em energias que variam de aproximadamente 20 gigaeletronvolts (GeV) a vários teraeletronvolts (TeV).

Essa sensibilidade excepcional é fundamental para a detecção de fontes de raios gama distantes e transientes.

Como os raios gama de altíssima energia são progressivamente absorvidos ao viajarem pelo Universo, o limiar de baixa energia dos LSTs permite aos cientistas investigar fontes a distâncias cosmológicas, observar períodos mais remotos da história cósmica e acompanhar a variabilidade de curtíssima duração de fontes de raios gama em evolução dinâmica com maior precisão estatística.

 

Um pioneiro produtivo: o LST-1

Mesmo durante sua fase de comissionamento, o protótipo do Telescópio de Grande Porte (LST-1) tem produzido resultados inovadores desde 2020.

Entre eles, destacam-se observações de pulsares, estudos de núcleos galácticos ativos a distâncias cosmológicas e observações de acompanhamento rápido de fenômenos transientes, como novas e explosões de raios gama (GRBs).

Com a incorporação dos três novos LSTs (LST-2, LST-3 e LST-4) ao LST-1 já existente, os quatro telescópios formarão um verdadeiro arranjo.

Ao observar simultaneamente os mesmos chuveiros de raios gama a partir de múltiplas direções, o subarranjo proporcionará sensibilidade, resolução angular e reconstrução de energia substancialmente aprimoradas, permitindo um novo nível de precisão no estudo do Universo em raios gama.

"A conclusão do subarranjo de LSTs é o ponto culminante de mais de quinze anos de colaboração internacional e inovação tecnológica", afirmou o Prof. Masahiro Teshima, Pesquisador Principal da Colaboração LST e Porta-voz do Consórcio CTAO.

"Esses telescópios nos permitirão explorar alguns dos ambientes mais extremos do Universo, incluindo buracos negros supermassivos, estrelas de nêutrons, as possíveis origens dos raios cósmicos e a natureza da matéria escura."

 

Explorando o Universo primordial

Os LSTs constituem o núcleo de baixa energia do CTAO-North e oferecerão uma oportunidade única de investigar o Universo em uma época situada há cerca de 12 bilhões de anos, quando ele tinha menos de dois bilhões de anos de idade.

Sua sensibilidade aos raios gama de mais baixa energia permitirá a detecção e o estudo de intensas rajadas de raios gama de altíssima energia (VHE) em alto desvio para o vermelho (*redshift*), potencialmente estendendo as observações de raios gama a fontes com *redshift* em torno de z∼4 e fornecendo novas perspectivas sobre o Universo primordial.

Nos próximos anos, os LSTs passarão pelas fases de comissionamento e integração às operações do CTAO.

Juntamente com os demais telescópios do CTAO — planejados para ambos os seus arranjos —, eles abordarão questões fundamentais da astrofísica, da física de partículas e da cosmologia, como a natureza da matéria escura, a origem dos raios cósmicos e a física de aceleradores cósmicos extremos.

 

Sobre a Colaboração LST

A Colaboração LST (*Large-Sized Telescope*) é um consórcio internacional de cientistas, engenheiros e instituições dedicado ao projeto, à construção e ao comissionamento dos LSTs para o CTAO.

A colaboração desenvolveu tecnologias avançadas em óptica, fotodetectores, mecânica e eletrônica de alta velocidade para alcançar o menor limiar de energia já atingido por observatórios de raios gama baseados em solo.

O projeto foi viabilizado por uma sólida parceria internacional, envolvendo instituições do Brasil, Bulgária, República Tcheca, Croácia, França, Alemanha, Itália, Japão, Polônia, Espanha e Suíça.

 

Sobre o CTAO

O CTAO (Cherenkov Telescope Array Observatory; www.ctao.org) será o maior e mais poderoso observatório de astronomia de raios gama do mundo.

A precisão sem precedentes e a ampla faixa de energia (20 GeV – 300 TeV) do CTAO ajudarão a abordar algumas das questões mais intrigantes da astrofísica, abrangendo três temas principais: compreender a origem e o papel de partículas cósmicas relativísticas; investigar ambientes extremos, como buracos negros ou estrelas de nêutrons; e explorar fronteiras da física, buscando matéria escura ou desvios da teoria da relatividade de Einstein.

Para cobrir sua ampla faixa de energia, o CTAO utilizará três tipos de telescópios: o Telescópio de Grande Porte (LST), o Telescópio de Porte Médio (MST) e o Telescópio de Pequeno Porte (SST). Mais de 60 telescópios serão distribuídos entre duas estações de observação: o CTAO-Norte, no hemisfério norte, no Observatório Roque de los Muchachos em La Palma, Espanha; e o CTAO-Sul, no hemisfério sul, no Observatório Paranal, no Deserto do Atacama, Chile.

O CTAO é um projeto de *Big Data*. O Observatório gerará centenas de petabytes (PB) de dados por ano (~12 PB após compressão).

Com base em seu compromisso com a Ciência Aberta, o CTAO será o primeiro observatório de raios gama desse tipo a operar como um observatório aberto, baseado em propostas, oferecendo acesso público aos seus dados científicos de alto nível e produtos de software.

A Organização Central do CTAO (legalmente, o CTAO ERIC) é responsável pela construção e operação do Observatório, bem como pela gestão dos quatro locais do CTAO. Os membros do CTAO ERIC incluem Áustria, Croácia, República Tcheca, Observatório Europeu do Sul (ESO), França, Alemanha, Itália, Polônia, Eslovênia, Espanha e Suíça.

Os Países Baixos também fazem parte do CTAO ERIC como Observadores. Outros países contribuintes — Austrália, Brasil, Japão, África do Sul e Estados Unidos — estão em processo de adesão ao CTAO ERIC como Parceiros Estratégicos ou Terceiras Partes.

Esse grupo trabalha em estreita cooperação com parceiros de todo o mundo, incluindo colaborações de contribuição em espécie (*in-kind*) que desenvolvem hardware e software essenciais, bem como o Consórcio CTAO, um grupo de pesquisadores que trabalha na exploração científica do Observatório.

Contatos Colaboração LST: Prof. Masahiro Teshima Investigador Principal (PI) do LST Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. (Inglês e japonês) Equipe de Divulgação do LST Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. (Inglês, italiano e espanhol) COMUNICADOS DE IMPRENSA NACIONAIS: VOCÊ PODE INSERIR AQUI UM CONTATO QUE FALE O IDIOMA NACIONAL CTAO (Cherenkov Telescope Array Observatory): Escritório de Comunicação do CTAO Dra. Alba Fernández-Barral Chefe de Comunicação do CTAO Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. (Inglês, espanhol e italiano)

O Prof. Luiz Vitor de Souza Filho é docente e pesquisador do IFSC/USP e membro dos experimentos Pierre Auger e CTA - Cherenkov Telescope Array Observatory. Atualmente é o presidente do Conselho Superior do Consórcio Cherenkov Telescope Array, Assessor da diretoria científica da FAPESP,

SÃO CARLOS/SP - A Prefeitura de São Carlos realizou, na quarta-feira (07/10), a 18ª audiência pública do processo de revisão do Plano Diretor Estratégico do município. O encontro foi na Escola Estadual Atília Prado Margarido, no bairro Santa Felícia, e ficou aberto a todos os interessados em acompanhar e participar do debate sobre o futuro da cidade.

O tema desta etapa foram os instrumentos de política urbana, ferramentas previstas na legislação para orientar o desenvolvimento das cidades e garantir que o crescimento ocorra de maneira planejada. A audiência foi aberta com palestra do doutor em Direito Urbanístico Thiago Marrara, professor da USP de Ribeirão Preto, que apresentou os instrumentos e explicou como funcionam na prática.

Em sua apresentação, o especialista destacou a importância de valorizar o modelo de cidade compacta, inteligente e resiliente, como ponto de partida para o uso dos instrumentos do Estatuto da Cidade e de outros mais recentes, como a arrecadação de bens abandonados. “Há técnicas várias, hoje, como a arrecadação, que podem ser introduzidas no Plano Diretor para resolver essas questões”, afirmou.

Marrara citou ainda instrumentos tradicionais, como a possibilidade de o município determinar que terrenos vazios sejam edificados ou parcelados, além do IPTU Progressivo, que, segundo ele, “funciona muito bem”.

Entre os assuntos tratados na audiência estiveram o estudo de impacto de vizinhança, que avalia os efeitos de grandes empreendimentos sobre o entorno, e as contrapartidas exigidas de empreendimentos imobiliários. Também foram abordadas a outorga onerosa do direito de construir e a alteração do uso do solo, além de mecanismos voltados a imóveis que não cumprem sua função social, como o IPTU progressivo e o parcelamento e a edificação compulsórios.

Para o secretário municipal de Desenvolvimento Urbano, João Muller, o tema é central para a revisão do plano. Ele explica que esses instrumentos foram definidos pelo legislador para que a cidade cresça de forma organizada e para que a propriedade cumpra sua função social.

Após a palestra, os participantes puderam analisar e apresentar sugestões sobre todos os instrumentos que a Prefeitura pretende manter no Plano Diretor, que estão sendo regulamentados por meio de lei complementar. Segundo o coordenador do Plano Diretor, Agnaldo Spaziani, a audiência reuniu cerca de 100 pessoas e durou aproximadamente duas horas. “Agora aguardamos a próxima audiência, que tratará de parcelamento e zoneamento do solo”, afirmou.

As audiências públicas integram a revisão do Plano Diretor Estratégico, documento que define as diretrizes de ocupação, uso do solo e desenvolvimento urbano do município. Ao abrir o debate à população, a Prefeitura busca ampliar a transparência e reunir contribuições de moradores, entidades e profissionais da área para a construção do novo texto.

SÃO CARLOS/SP - A sexta geração de tecnologias de comunicação sem fio para redes de internet móvel (6G) promete avanços enormes em relação à 5G, podendo ser dezenas de vezes mais rápida. Um dos maiores desafios para implementar a tecnologia 6G, entretanto, está na enorme dificuldade de o sinal atravessar obstáculos físicos, como paredes, móveis e árvores. O uso dessa tecnologia, portanto, requererá uma grande quantidade de repetidores de sinal e antenas. Fabricar antenas de baixo custo, que possam ser instaladas em residências e escritórios, com muitos e variados obstáculos, é uma meta a ser alcançada.

Uma pesquisa publicada na revista ACS Omega mostra que é possível fabricar antenas de comunicação sem fio sobre placas de fibra de madeira de média densidade (MDF, do inglês medium density fiberboard) usando grafeno induzido pelo laser. Essa é uma alternativa para integrar conectividade a móveis e estruturas internas de edifícios, que ganhou força com o estudo de pesquisadores brasileiros. Como o MDF é muito utilizado na produção de móveis, uma mesa, um armário, uma divisória ou mesmo parte da estrutura interna de um ambiente poderá, no futuro, desempenhar uma função que normalmente associamos a equipamentos eletrônicos: ajudar a transmitir sinais de comunicação sem fio.

O trabalho, publicado em agosto deste ano na revista acima citada apresenta uma técnica que utiliza laser para transformar parte da superfície do MDF em um material condutor à base de carbono. Sobre essa superfície são desenhadas as antenas, sem necessidade de instalar uma estrutura metálica convencional sobre a madeira.

A pesquisa reuniu cientistas do Instituto Nacional de Telecomunicações - Inatel, da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Presbiteriana Mackenzie e de outras instituições. Entre os pesquisadores da USP estão Desirée Tamara Scheidt e Emanuel Carrilho, do Instituto de Química de São Carlos (IQSC/USP) e Osvaldo Novais de Oliveira Jr., do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP).

Do MDF nasce uma antena

A antena é resultado do Centro de Competência Embrapii Inatel em Redes 5G e 6G - xGMobile, uma parceria entre o Inatel e a Embrapii que reúne os pesquisadores Elsa María Materón, Faustino Reyes Gómez e os professores Luciano Leonel Mendes e Jorge Ricardo Mejía Salazar, todos em busca de novas alternativas para as redes de telecomunicações 5G e 6G.

A inovação está em aproveitar um material extremamente comum. Em vez de produzir uma antena separadamente para depois instalá-la em um móvel, os pesquisadores investigaram uma forma de fazer com que a própria placa de MDF sirva de base para sua fabricação.

Para isso, a superfície da madeira passa por uma preparação e, posteriormente, recebe a ação de um laser de dióxido de carbono. O processo modifica o material na região atingida pelo feixe e produz uma camada porosa e eletricamente condutora conhecida como “grafeno induzido por laser”.

Em termos simples, o laser funciona como uma espécie de “caneta tecnológica”: percorre determinados pontos da superfície e provoca uma transformação controlada no material, formando caminhos capazes de conduzir eletricidade. Antes desse procedimento, o MDF é tratado com uma substância que ajuda a controlar sua reação ao calor produzido pelo laser.

No artigo são apresentadas imagens de microscopia que mostram essa transformação. Antes do processamento, observa-se a estrutura fibrosa característica do MDF. Depois da passagem do laser, surge uma superfície carbonizada e porosa, justamente a região utilizada para formar o elemento condutor da antena.

O método tem uma vantagem importante: dispensa algumas das instalações sofisticadas normalmente associadas à fabricação de componentes eletrônicos. Os autores destacam que a produção do grafeno induzido por laser não exige ambientes especiais de fabricação nem procedimentos químicos complexos, o que pode favorecer a produção rápida e, futuramente, em maior escala.

Duas antenas colocadas à prova

Para demonstrar que a ideia funcionava, os pesquisadores produziram dois modelos de antena: um retangular e outro circular. Foram fabricadas duas unidades de cada formato para avaliar também se o processo poderia ser repetido mantendo resultados semelhantes.

O procedimento experimental é bastante simples: sobre o MDF pré-preparado, o laser “grava” a região condutora, e então são montados os componentes necessários para conectar a antena aos equipamentos de comunicação.

Os protótipos passaram por testes para verificar como recebiam e transmitiam sinais. Os resultados experimentais foram comparados com simulações computacionais. Os testes mostraram que os dois formatos conseguiram operar em diferentes faixas de frequência abaixo de 6 GHz e também em faixas superiores próximas a esse intervalo, apresentando comportamento próximo daquele previsto pelas simulações.

Essa concordância entre o que foi previsto nas simulações computacionais e os resultados experimentais demonstra ser possível projetar antenas de maneira eficaz.

Antena escondida no próprio móvel

Mais do que alcançar o melhor desempenho possível para uma antena, o objetivo central dos pesquisadores foi demonstrar uma nova maneira de integrar sistemas de comunicação aos ambientes.

Atualmente, antenas destinadas a equipamentos eletrônicos geralmente são componentes independentes, produzidos com materiais específicos e posteriormente instalados nos dispositivos ou estruturas. Com a nova abordagem, o próprio móvel poderia incorporar a antena durante sua fabricação.

Imagine, por exemplo, uma mesa de escritório cuja superfície contenha uma antena praticamente imperceptível, ou divisórias e armários que façam parte de uma rede de pequenos pontos de comunicação distribuídos por um edifício. Essa estratégia pode ser particularmente interessante em ambientes nos quais muitos equipamentos precisam permanecer conectados. Em vez de depender apenas de poucos pontos de transmissão mais potentes, seria possível distribuir diversas antenas discretamente pelo espaço. O artigo aponta justamente para aplicações de curta distância, da ordem de poucos metros, nas quais vários pontos transmissores poderiam ser espalhados pelo ambiente.

A ideia ganha relevância diante do crescimento das redes 5G, do desenvolvimento do 6G e da chamada Internet das Coisas, cenário no qual um número cada vez maior de objetos, sensores e equipamentos deverá trocar informações continuamente. Os autores observam que a próxima geração de sistemas de comunicação exigirá soluções que possam ser produzidas em escala, tenham custos competitivos e sejam incorporadas de maneira discreta às estruturas do cotidiano.

Tecnologia ainda pode avançar

Os pesquisadores reconhecem, entretanto, que as antenas produzidas ainda apresentam limitações. Seu desempenho é inferior ao de antenas convencionais obtidas com metais. Parte da energia é perdida tanto no próprio MDF quanto na camada condutora criada pelo laser.

De fato, o estudo não buscou substituir imediatamente as antenas metálicas de alto desempenho, mas demonstrar que existe uma alternativa viável para situações nas quais facilidade de fabricação, integração ao ambiente e comunicação a pequenas distâncias sejam mais importantes.

Os próprios autores apontam caminhos para melhorar a tecnologia, como aperfeiçoar a ação do laser, reduzir as perdas elétricas e combinar o grafeno com outros materiais condutores.

Há também um aspecto que diferencia o estudo de trabalhos anteriores. Antenas feitas com grafeno induzido por laser já haviam sido desenvolvidas, mas normalmente sobre filmes plásticos especiais ou papel. Segundo os autores, não havia sido demonstrada a fabricação desse tipo de antena diretamente sobre um material industrial derivado da madeira, como o MDF.

Madeira, laser e conectividade

O resultado aproxima dois universos aparentemente distantes: a indústria tradicional de móveis e as tecnologias avançadas de telecomunicações. Ao transformar uma parte da própria madeira em componente funcional de uma antena, a pesquisa sugere uma nova concepção para os ambientes conectados. Em vez de acrescentar cada vez mais dispositivos eletrônicos visíveis a casas, escritórios e edifícios, determinadas funções poderão ser incorporadas aos objetos que já fazem parte desses espaços.

Ainda são necessários aperfeiçoamentos antes que a tecnologia possa alcançar aplicações comerciais mais amplas. Mas os experimentos demonstram que o MDF pode deixar de ser apenas suporte físico e passar a participar ativamente da infraestrutura de comunicação.

Nesse cenário, a conectividade do futuro talvez não esteja apenas nos aparelhos colocados sobre uma mesa. Ela poderá estar na própria mesa.

Confira o original desta pesquisa acessando o link – https://www2.ifsc.usp.br/portal-ifsc/wp-content/uploads/2026/09/acsomega.6c07385-chu.pdf

Pesquisa realizada no Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP) mostra que técnica fotodinâmica pode fragilizar a bactéria Staphylococcus aureus e aumentar a ação do antibiótico quando o medicamento é administrado no momento adequado

 

SÃO CARLOS/SP - Uma estratégia que combina luz, curcumina e antibióticos pode contribuir para o desenvolvimento de novas formas de combate a infecções bacterianas persistentes. Estudo realizado por pesquisadores do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP) mostrou que a aplicação de uma técnica baseada em luz pode reduzir significativamente a população de Staphylococcus aureus e tornar as bactérias sobreviventes mais vulneráveis ao antibiótico — desde que o medicamento seja administrado no momento adequado.

Publicado na revista científica “Photochemistry and Photobiology”, o trabalho é assinado por Maria Vitória Silva Pereira, Bruna Carolina Corrêa, Vanderlei Salvador Bagnato e Kate Cristina Blanco, e a pesquisa investigou a chamada inativação fotodinâmica, técnica que utiliza uma substância sensível à luz para desencadear reações capazes de provocar danos em estruturas essenciais dos microrganismos.

Nos experimentos, os pesquisadores utilizaram curcumina, composto encontrado na cúrcuma, associada à luz azul. Separadamente, nem a curcumina no escuro nem a exposição apenas à luz produziram redução significativa da população bacteriana nas condições analisadas. Quando empregadas em conjunto, porém, apresentaram efeito expressivo. Nas maiores concentrações de curcumina testadas, a quantidade de bactérias ficou abaixo do limite de detecção do experimento.

O estudo concentrou atenção especial nas bactérias que conseguiram sobreviver ao procedimento. Logo após a aplicação da técnica fotodinâmica, parte delas apresentou temporariamente menor vulnerabilidade ao antibiótico. Isso não significou, entretanto, que tivessem adquirido resistência ao medicamento.

A explicação considerada pelos pesquisadores é que o estresse provocado pela luz e pela curcumina leva algumas bactérias a reduzir temporariamente sua atividade. Como muitos antibióticos atuam com maior eficiência sobre microrganismos metabolicamente ativos, esse período de baixa atividade pode diminuir momentaneamente a ação do medicamento.

Os experimentos mostraram que, nas primeiras quatro horas depois do tratamento fotodinâmico, houve atraso significativo no crescimento bacteriano. Após aproximadamente seis horas, as células começaram a recuperar sua atividade. Foi justamente nesse momento que surgiu um dos resultados mais relevantes da pesquisa.

Quando o antibiótico foi aplicado depois que as bactérias sobreviventes retomaram sua atividade, a velocidade de eliminação aumentou. A interpretação é que as células voltaram a ficar metabolicamente ativas, tornando-se novamente suscetíveis ao medicamento, mas ainda carregando os danos provocados anteriormente pelo tratamento fotodinâmico.

O resultado indica que, além da associação entre diferentes tratamentos, a sequência e o intervalo entre eles podem ser determinantes. Administrar o antibiótico imediatamente após a aplicação da luz e da curcumina pode encontrar parte das bactérias em estado de baixa atividade. Aguardar sua recuperação pode permitir que o medicamento atue sobre células novamente ativas e, ao mesmo tempo, fragilizadas.

A pesquisa também analisou uma linhagem de Staphylococcus aureus resistente à meticilina, conhecida como MRSA. Nesse caso, o comportamento observado foi diferente, e os pesquisadores destacam a necessidade de novos estudos antes de estender os resultados obtidos com a linhagem sensível para bactérias resistentes.

Os resultados abrem uma frente de investigação para estratégias contra infecções persistentes. Em vez de depender apenas de medicamentos mais potentes ou de doses maiores, a possibilidade é explorar momentos de maior vulnerabilidade das bactérias e combinar mecanismos diferentes de ataque.

Os pesquisadores ressaltam, contudo, que o trabalho ainda é experimental e foi realizado em laboratório. A estratégia não constitui, portanto, um protocolo clínico disponível para pacientes. Novos estudos serão necessários para determinar os intervalos mais adequados entre os tratamentos e avaliar a resposta de diferentes tipos de bactérias.

A pesquisa contou com apoio da FAPESP e da CAPES, além da infraestrutura e do suporte técnico do IFSC/USP e do Centro de Pesquisa em Óptica e Fotônica (CEPOF), financiado pela FAPESP.

Acesse no link o original deste estudo – https://www2.ifsc.usp.br/portal-ifsc/wp-content/uploads/2026/09/Photochem-Photobiology-2025-Pereira-Photodynamic-inactivation-increases-cell-death-rate-on-persistent-kate.pdf

Estudo associa compressão pneumática e fotobiomodulação e inicia nova etapa de atendimento no dia 30 de setembro

 

SÃO CARLOS/SP - O Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP) inicia, no próximo dia 30 de setembro do corrente ano, uma nova fase do estudo clínico destinado a mulheres com diagnóstico de lipedema. Nesta etapa, serão disponibilizadas 20 vagas para pacientes voluntárias, dando continuidade às pesquisas que investigam novas estratégias para melhorar os sintomas e a qualidade de vida de mulheres que convivem com a condição.

O estudo avalia a associação de duas tecnologias: a compressão pneumática intermitente e a fotobiomodulação com laser de baixa potência, sendo que o objetivo é investigar os efeitos dessa combinação sobre sintomas associados ao lipedema e sobre a circulação periférica dos membros inferiores.

O tratamento utiliza uma bota pneumática especialmente desenvolvida, que exerce pressão controlada sobre as pernas, enquanto que, de forma simultânea, um sistema de laser incorporado ao equipamento realiza a fotobiomodulação.

A proposta é reunir, em um único procedimento, a ação mecânica da compressão pneumática e a ação fotobiológica da luz, permitindo investigar os possíveis efeitos da associação dessas tecnologias.

Dez sessões durante cinco semanas

Cada voluntária selecionada participará de um protocolo composto por dez sessões realizadas ao longo de cinco semanas, com duas sessões semanais. Cada atendimento terá duração aproximada de 30 minutos.

A nova fase contará com a participação de 20 mulheres e os atendimentos serão realizados em São Carlos.

Podem manifestar interesse mulheres com 18 anos ou mais e com diagnóstico clínico prévio de lipedema. De acordo com os critérios divulgados para o estudo, não poderão participar mulheres com histórico de doenças cardiovasculares, tabagismo, uso de álcool ou histórico oncológico.

O que é o lipedema?

O lipedema é uma condição crônica e progressiva caracterizada pelo acúmulo anormal e desproporcional de tecido adiposo, atingindo principalmente pernas e quadris e, em algumas pessoas, também os braços.

Entre os sintomas mais frequentes estão dor, sensibilidade nas regiões afetadas, sensação de peso nos membros e facilidade para desenvolver hematomas, mesmo diante de pequenos traumas. Em quadros mais avançados podem ocorrer alterações linfáticas e circulatórias.

Embora suas causas ainda não estejam completamente esclarecidas, há indícios de participação de fatores genéticos e hormonais. A manifestação ou progressão da condição é frequentemente relacionada a períodos de mudanças hormonais, como puberdade, gestação e menopausa.

O lipedema pode produzir impactos que ultrapassam as alterações físicas. Dor persistente, limitação funcional e mudanças na composição corporal podem repercutir nas atividades cotidianas e na qualidade de vida das pacientes.

Nova fase da pesquisa

A abertura das 20 novas vagas representa a continuidade da investigação realizada em São Carlos. O estudo busca ampliar o conhecimento científico sobre a utilização da compressão pneumática associada à fotobiomodulação e compreender melhor seus possíveis efeitos em mulheres com lipedema.

Por se tratar de um estudo clínico experimental, a participação das voluntárias também contribui para a produção de evidências científicas que poderão orientar futuras pesquisas e protocolos terapêuticos.

O contato para a participação das voluntárias nesta pesquisa é diretamente com o pesquisador Matheus Henrique Camargo Antonio, pelo Whatsapp (16) 98809-1325, que informará a forma e o local onde ocorrerá o tratamento experimental.

São Carlos ganha protagonismo em rede da USP que aproxima ciência e indústria. Com quase cem projetos desenvolvidos com empresas, 40 produtos colocados no mercado e mais de R$ 160 milhões em tributos gerados, polo são-carlense ocupa posição estratégica na Rede Embrapii USP, coordenada pelo docente e pesquisador do IFSC/USP, Prof. Vanderlei Bagnato.

 

SÃO CARLOS/SP - Transformar conhecimento científico em produtos, tecnologias e soluções capazes de chegar à sociedade é um dos grandes desafios das universidades brasileiras. Na USP, essa aproximação entre laboratórios e empresas ganha agora uma estrutura mais ampla com a consolidação da “Rede Embrapii USP”, que reúne dez centros de pesquisa da Universidade e tem em São Carlos um de seus principais polos de inovação.

Os números ajudam a dimensionar esse protagonismo. Somente o polo são-carlense acumula quase cem projetos desenvolvidos em parceria com o setor industrial. Desse trabalho resultaram 40 produtos introduzidos no mercado e mais de R$ 160 milhões em arrecadação de tributos.

Por trás dos números está uma estratégia que pretende fazer com que a excelência científica existente na Universidade atravesse as paredes dos laboratórios e encontre problemas concretos apresentados pelas empresas e pela sociedade.

Essa é também uma das ideias defendidas pelo Prof. Vanderlei Salvador Bagnato, do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), coordenador da “Rede Embrapii USP” e da “Unidade Embrapii USP/IFSC”, sendo que, para ele “Os grandes desafios tecnológicos contemporâneos já não podem ser enfrentados de forma isolada. A inovação não é um tópico isolado; ela é multidisciplinar. Sem atuar em rede, não conseguimos fazer inovação transversal”, afirma Bagnato.

A proposta ganhou força com o “Primeiro Encontro da Rede Embrapii USP”, realizado no dia 17 deste mês de setembro, no Centro de Treinamento do Instituto de Radiologia (InRad) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo.

Pela primeira vez, coordenadores e pesquisadores dos centros credenciados reuniram-se presencialmente para discutir como conhecimentos produzidos em áreas tão diferentes quanto física, saúde, inteligência artificial, engenharia, química, agricultura e desenvolvimento de fármacos podem ser combinados para solucionar problemas apresentados pelo setor produtivo.

O encontro marcou ainda a incorporação do “Inova-HC” à rede, elevando para dez o número de centros participantes.

São Carlos como polo de inovação

A presença de São Carlos nessa estrutura é particularmente significativa. O campus reúne dois dos integrantes da “Rede Embrapii USP”: o Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP) e o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC/USP), colocando lado a lado competências que passam pela física, biofotônica, instrumentação, computação e inteligência artificial.

No IFSC/USP, a relação com empresas já possui uma trajetória consolidada. Credenciada pela Embrapii desde 2017, a unidade atua especialmente nas áreas de biofotônica e instrumentação, aproximando a pesquisa científica de aplicações tecnológicas.

Na prática, isso significa utilizar conhecimentos de fronteira desenvolvidos na Universidade para criar equipamentos, processos e soluções capazes de responder a necessidades reais.

Essa aproximação pode ser observada em projetos recentes. Em parceria com empresas, pesquisadores do IFSC/USP vêm trabalhando, por exemplo, no desenvolvimento de tecnologias que combinam laser terapêutico e sistemas de compressão pneumática para recuperação muscular. A unidade também acumula experiência no desenvolvimento de tecnologias fotônicas voltadas à área médica.

Mais do que casos isolados, esses projetos ajudam a mostrar como a pesquisa acadêmica pode percorrer um caminho que começa na investigação científica e termina em uma tecnologia potencialmente disponível para empresas, profissionais e população.

É justamente esse percurso que a “Rede Embrapii USP” pretende ampliar.

Uma rede para derrubar fronteiras

Criada em outubro de 2025, a rede surgiu com a missão de integrar competências que já existiam dentro da própria Universidade, mas que nem sempre trabalhavam de maneira articulada.

A lógica é que uma empresa com determinado desafio tecnológico não precise encontrar todas as respostas em um único laboratório. Um projeto iniciado na física pode necessitar de inteligência artificial; uma solução médica pode depender da engenharia; uma inovação industrial pode exigir novos materiais, química ou ciência de dados.

Ao conectar esses grupos, a USP procura criar uma espécie de porta de entrada para projetos de maior complexidade.

Além do IFSC/USP e do ICMC/USP, participam da rede grupos da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ), Instituto de Química (IQSint), Centro de Inovação em Fármacos (CEINFAR), Escola Politécnica — por meio das unidades TecnoGreen, Powertrain e Centro de Inovação em Construção Sustentável (CICS Poli) — e o Inova-HC.

Para Bagnato, três conceitos são fundamentais nesse processo: abrangência, regionalidade e parceria com a indústria.

A abrangência está na diversidade de conhecimentos reunidos. A regionalidade permite que a capacidade científica da USP alcance empresas instaladas em diferentes pontos do Estado. E a parceria pressupõe uma relação que vá além da simples prestação de serviços. “Nós queremos ser verdadeiros parceiros de inovação”, afirma o pesquisador.

Isso significa que a Universidade não deve apenas receber um problema da empresa e executar uma tarefa previamente estabelecida. Seus pesquisadores podem participar da própria construção da solução, alterando caminhos científicos e tecnológicos quando os obstáculos encontrados durante o projeto assim exigirem.

Ciência excelente e ciência relevante

Essa concepção toca em uma questão que acompanha o próprio debate sobre o papel das universidades públicas: como conciliar a pesquisa voltada à expansão das fronteiras do conhecimento com a necessidade de responder aos problemas da sociedade?

Para Bagnato, essas duas dimensões não são concorrentes. Ao contrário, devem caminhar juntas.

O professor distingue aquilo que chama de “ciência excelente”, responsável por ampliar o conhecimento e formar pesquisadores altamente qualificados, da “ciência relevante”, direcionada à solução de problemas concretos apresentados pela sociedade e pelo setor produtivo.

A inovação surge justamente no encontro entre essas duas vertentes.

Essa visão ajuda a explicar por que São Carlos ocupa posição importante no projeto. Ao longo de décadas, a cidade consolidou um ambiente de pesquisa marcado pela interação entre diferentes áreas do conhecimento e pela presença de universidades, centros de pesquisa e empresas de base tecnológica.

Com a “Rede Embrapii USP”, essa experiência passa a integrar uma estrutura que abrange diferentes campi e áreas da Universidade.

O modelo financeiro também procura diminuir um dos obstáculos tradicionais enfrentados pelas empresas quando decidem investir em pesquisa de maior risco tecnológico. Os projetos funcionam pelo sistema conhecido como matching money: aproximadamente um terço dos recursos é aportado pela Embrapii, outro terço pelas empresas participantes e a parcela restante corresponde à contribuição da Universidade, por meio de pesquisadores, infraestrutura, equipamentos e conhecimento acumulado.

Ao compartilhar custos e riscos, o sistema permite que empresas avancem em projetos que poderiam ser difíceis de desenvolver isoladamente.

Do laboratório para o mercado

O desafio, porém, não termina com uma descoberta científica. Entre uma boa ideia produzida dentro da Universidade e um produto disponível no mercado existe um percurso que envolve desenvolvimento tecnológico, testes, validações, propriedade intelectual, investimentos e capacidade industrial.

É justamente nessa travessia que a “Rede Embrapii USP” pretende atuar.

O primeiro encontro presencial mostrou que, mais do que reunir dez centros sob uma mesma denominação, a intenção é criar mecanismos para que eles efetivamente trabalhem juntos. A programação foi dedicada à apresentação das competências de cada unidade e terminou com uma mesa-redonda sobre experiências práticas, relacionamento com empresas e formas de tornar mais ágil a transferência das tecnologias desenvolvidas na Universidade.

Nesse cenário, a experiência acumulada pelo IFSC/USP e pelo polo de São Carlos funciona como uma demonstração concreta do potencial dessa aproximação.

Os quase cem projetos realizados com empresas e os 40 produtos que chegaram ao mercado indicam que a conexão entre ciência e indústria pode produzir resultados que ultrapassam os indicadores acadêmicos.

Para Bagnato, é justamente aí que está um dos sentidos da inovação dentro de uma universidade pública: fazer com que o conhecimento de excelência produzido por seus pesquisadores também se transforme em respostas aos desafios encontrados fora dela.

Ao reunir física, inteligência artificial, medicina, engenharia, química, agricultura e outras áreas em uma mesma estrutura de cooperação, a “Rede Embrapii USP” aposta que a próxima grande inovação poderá não nascer de um único laboratório.

Ela poderá surgir justamente da conexão entre eles.

(Texto adaptado de notícia veiculada pelo “Jornal da USP” em 18 de setembro de 2026, da autoria de Michel Sitnik)

Realidade virtual, holografias, jogos e recursos audiovisuais aproximam o público de uma das áreas mais complexas da ciência; mostra permanece na Biblioteca do Campus 2 da USP, em São Carlos, até 10 de outubro

 

SÃO CARLOS/SP - Compreender a Mecânica Quântica pode parecer, à primeira vista, um desafio reservado aos cientistas. Mas uma exposição inaugurada pelo Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP) pretende justamente romper essa barreira e mostrar que conceitos responsáveis por transformar nossa compreensão da natureza — e por sustentar inúmeras tecnologias utilizadas atualmente — também podem despertar curiosidade, encantamento e interesse em públicos de todas as idades.

A “Expo Quantum Universe: uma imersão interativa nos 100 anos da Mecânica Quântica” foi inaugurada no dia 18 de setembro, na Biblioteca do Campus 2 da USP, em São Carlos. Com mais de 100 metros quadrados, a mostra combina ciência, tecnologia e arte para celebrar o centenário de uma das maiores revoluções científicas da história.

Desenvolvida pelo “Estúdio de Mídia, Cultura e Ciência – E=mc²”, do IFSC/USP, sob coordenação do Prof. Dr. Guilherme Matos Sipahi, a exposição utiliza realidade virtual, holografias, painéis digitais, jogos e experiências audiovisuais para apresentar ao visitante princípios da Física Quântica de maneira acessível e interativa.

Mais do que apresentar conceitos científicos, a proposta é despertar a curiosidade.

Na cerimônia de abertura, Sipahi destacou que a complexidade da Mecânica Quântica não deve impedir que o conhecimento chegue à população. Para o docente, uma das funções da divulgação científica é justamente criar condições para que as pessoas tenham um primeiro contato com temas considerados difíceis e, a partir daí, desenvolvam interesse pela ciência.

“A função desta exposição é trazer as pessoas para pensarem um pouco de Mecânica Quântica, para aprenderem o básico [...] para depois se interessarem. Ela é voltada para todo mundo”, ressaltou o coordenador.

A iniciativa contou com apoio de instituições de fomento e da própria Universidade, incluindo a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a USP. Sipahi ressaltou durante a abertura a importância desse apoio, especialmente por se tratar de um projeto voltado à exposição e à divulgação científica.

Uma revolução que continua

Ao celebrar os cem anos da Mecânica Quântica, a exposição também propõe uma reflexão sobre o futuro.

O vice-diretor do IFSC/USP, Prof. Dr. Luís Gustavo Marcassa, lembrou que grande parte do mundo tecnológico contemporâneo nasceu dos conhecimentos desenvolvidos a partir da primeira revolução quântica. Agora, segundo ele, a humanidade atravessa uma nova etapa. “O mundo que a gente vive hoje é o mundo que nasceu graças à primeira revolução da Mecânica Quântica, há 100 anos. Hoje, a gente vive a segunda revolução da Mecânica Quântica”, afirmou.

Essa nova fase está relacionada ao desenvolvimento de tecnologias que exploram de maneira cada vez mais sofisticada fenômenos quânticos. Para Marcassa, participar dessa transformação exige que o País desenvolva conhecimento e tecnologia próprios — e isso passa não apenas pela pesquisa, mas também pela formação de pessoas e pela divulgação científica. “Se nós queremos fazer parte dessa segunda revolução da Mecânica Quântica, nós temos que desenvolver nossa própria tecnologia. E a tecnologia passa através de fazer a divulgação, formar pessoal e assim por diante”, destacou.

A exposição ganha, dessa maneira, uma dimensão que ultrapassa a comemoração histórica. Ao apresentar a ciência ao público, especialmente às novas gerações, a iniciativa também procura estimular futuros estudantes e pesquisadores que poderão participar do desenvolvimento das tecnologias quânticas nas próximas décadas.

Ciência em outra linguagem

Presente à inauguração, o Pró-Reitor Adjunto de Cultura e Extensão Universitária da USP, Prof. Dr. Iran José Oliveira da Silva, chamou a atenção para outro aspecto da iniciativa: a capacidade de traduzir a linguagem científica para formatos mais próximos da população.

Segundo ele, abrir as portas da Universidade significa também encontrar novas formas de apresentar o conhecimento produzido dentro dela. Em áreas consideradas complexas, como a Física Quântica, recursos lúdicos e interativos podem funcionar como uma ponte entre pesquisadores e sociedade.

A possibilidade de uma criança entrar em contato com conceitos quânticos por meio de jogos, imagens, realidade virtual e outras experiências pode produzir, segundo o professor, um sentimento de encantamento capaz de despertar interesses que dificilmente surgiriam no cotidiano.

Para o pró-reitor adjunto, a exposição representa um ponto de encontro entre Universidade, sociedade e juventude. Ele também destacou o pioneirismo de Guilherme Sipahi na concepção de uma mostra de grande porte que, ao mesmo tempo, é móvel, flexível e adaptável a diferentes espaços.

Essa característica será fundamental para a próxima etapa do projeto.

De São Carlos para outros públicos

A “Expo Quantum Universe” foi concebida como uma exposição itinerante. Depois de sua apresentação em São Carlos, a expectativa é que possa percorrer outros campi da Universidade de São Paulo e instituições parceiras, levando a experiência a públicos diferentes.

A mobilidade amplia o alcance de uma iniciativa que tem como princípio transformar conhecimento científico especializado em uma experiência compreensível sem retirar dele sua capacidade de provocar perguntas.

Holografias, painéis digitais, realidade virtual e recursos audiovisuais deixam, nesse contexto, de ser apenas elementos tecnológicos da exposição. Tornam-se ferramentas de comunicação científica.

A proposta também evidencia uma transformação na maneira como a Universidade se relaciona com a sociedade. Além da produção de pesquisas e da formação de pesquisadores, ganha espaço a preocupação em fazer com que o conhecimento ultrapasse laboratórios, salas de aula e publicações acadêmicas.

É nesse ponto que a celebração dos cem anos da Mecânica Quântica encontra uma perspectiva de futuro.

Uma teoria que, no início do século passado, alterou profundamente a maneira como os cientistas compreendiam a matéria, a energia e o funcionamento da natureza está na origem de tecnologias que hoje fazem parte da vida cotidiana. Um século depois, novos avanços colocam novamente a Física Quântica no centro de uma transformação científica e tecnológica.

Ao permitir que crianças, jovens e adultos tenham contato com esse universo de forma interativa, a exposição do IFSC/USP procura mostrar que a ciência não precisa permanecer distante do público.

Mais do que explicar o que aconteceu nos últimos cem anos, a “Expo Quantum Universe” lança uma pergunta para as próximas gerações: até onde a nova revolução quântica poderá nos levar?

A exposição permanece aberta ao público até 10 de outubro, na Biblioteca do Campus 2 da USP, em São Carlos.

SÃO CARLOS/SP - O auditório Luiz Antônio Fávaro, no Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP São Carlos, recebeu nesta sexta-feira (18/09) um evento que reuniu Prefeitura e universidade para apresentar o andamento do projeto IntegraSanca, iniciativa de integração de dados municipais conduzida pelo Centro de Ciência para o Desenvolvimento. Também foram apresentados o sistema de gestão da Secretaria Municipal de Educação e os dados levantados pelas secretarias de Cidadania e Assistência Social e de Saúde.

Durante o encontro, a Prefeitura apresentou formalmente aos pesquisadores da USP os dados coletados pelo IntegraSanca, entregando à equipe acadêmica o material que vai basear o desenvolvimento das soluções de integração propostas pelo projeto.

O levantamento feito pela Comissão Especial de Governança de Dados Municipais mapeou 101 softwares em uso na administração municipal. Do total, 42 foram desenvolvidos internamente, 31 são externos ou contratados e 28 estão obsoletos ou abandonados, ainda consumindo recursos de manutenção.

O diagnóstico também identificou fragilidades no armazenamento de dados: 11 secretarias ainda dependem de arquivos físicos e 9 usam planilhas soltas sem backup. 
Com base nesse retrato, a comissão apresentou recomendações organizadas em seis eixos: uma política unificada de Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), o fim do uso de papel em processos administrativos, adoção de nuvem corporativa homologada, governança de planilhas, entre outros temas.

A Secretaria Municipal de Educação apresentou o modelo adotado para sua nova plataforma de gestão: um ERP especializado em educação, mantido por equipe própria de Tecnologia da Informação dentro da Secretaria, com a empresa contratada responsável pelo desenvolvimento técnico dos módulos. O sistema, batizado DemandaNet, vai integrar dez frentes da rede municipal, do planejamento de vagas à gestão da vida funcional docente.

A Secretaria de Cidadania e Assistência Social apresentou os dados dos programas sociais do município, e a Secretaria de Saúde mostrou os dados de dispensação de medicamentos nas farmácias municipais e do prontuário eletrônico dos pacientes.

A professora Cristina Aguiar, pesquisadora da USP e uma das coordenadoras do projeto, descreveu a situação atual dos sistemas municipais. “Existem diversos sistemas que não se conversam, os dados que estão nesse sistema são totalmente heterogêneos, no sentido que eu posso encontrar o mesmo dado em diferentes lugares, com valores diferentes".

Segundo Cristina, o IntegraSanca busca resolver esses conflitos antes que a Prefeitura precise gerar um relatório ou tomar uma decisão. “A ideia é já ter esses conflitos resolvidos de antemão, para que, no momento de gerar um relatório ou tomar uma decisão, os dados estejam consistentes e mais apurados", afirmou. A pesquisadora destacou ainda que o projeto prevê a transferência de conhecimento da academia para a Prefeitura, de modo que a equipe municipal continue operando os sistemas após o fim do projeto.

A pesquisadora Kalinka Castelo Branco resumiu o diagnóstico de forma direta. "Temos muitos dados, mas pouca informação, porque quando conseguimos integrar esses dados, conseguimos gerar uma informação específica para a população e também para o gestor, para a tomada de decisão”. Para ela, o resultado no médio prazo deve ser “uma Prefeitura mais resiliente, uma cidade mais inteligente e um retorno para a população de um modo mais efetivo". 

O secretário adjunto de Cidade Inteligente, Cristiano Pedrino, classificou a iniciativa como pioneira. “Conseguir integrar esses dados para transformar as políticas públicas da cidade de uma forma baseada no que temos nos sistemas, isso nunca aconteceu, nunca tivemos um projeto e uma proximidade como estamos tendo no momento com a FAPESP, com a USP, com a UFSCar e todas as demais universidades", disse.

O prefeito de São Carlos, Netto Donato, classificou o trabalho como "de excelência". Segundo ele, a integração de bases como as de saúde e educação, prevista pelo IntegraSanca, deve viabilizar serviços como o agendamento digital de consultas médicas e matrículas escolares, dando à população mais transparência para acompanhar a gestão pública.

Netto observou que a arquitetura de integração de dados opera nos bastidores da gestão municipal, sem visibilidade imediata para a população, mas com efeito direto sobre a eficiência dos serviços prestados.

Como exemplo prático do custo operacional gerado pela ausência de um sistema integrado, o prefeito citou que, somente no mês anterior, mais de mil consultas nas unidades de saúde do município registraram faltas de pacientes sem aviso prévio. Segundo ele, com uma base de dados unificada e canais de comunicação integrados com a população, essas vagas poderiam ser identificadas e realocadas em tempo real para outros pacientes em situação de maior urgência.

Também participaram do evento a secretária de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia, Paula Knoff, de Cidade Inteligente e Transparência, Mateus de Aquino e de Gestão da Cidade e Infraestrutura, Leonardo Lázaro.

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