Prof. Luiz Vitor de Souza Filho, presidente do Conselho Superior do Consórcio Cherenkov Telescope Array, esteve presente na cerimônia de inauguração de quatro gigantescos telescópios nas Ilhas Canárias, na Espanha. O empreendimento internacional permitirá investigar fenômenos cósmicos extremos, desvendar mistérios relacionados com buracos negros e matéria escura e observar acontecimentos ocorridos há bilhões de anos.
SÃO CARLOS/SP - A ciência mundial deu mais um importante passo na compreensão dos grandes mistérios do Universo. No dia 15 de outubro, o Observatório Roque de los Muchachos, localizado na ilha de La Palma, nas Ilhas Canárias (Espanha) foi palco de uma cerimônia que assinala um marco na história da astronomia contemporânea: a inauguração de um conjunto de quatro telescópios de grande porte, concebidos para observar alguns dos fenômenos mais energéticos e distantes do cosmos.
A cerimônia, que reuniu cerca de duzentos e cinquenta cientistas e representantes de importantes instituições de pesquisa de diversos países, contou com a presença do Prof. Luiz Vitor de Souza Filho, docente e pesquisador do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), integrante de duas importantes colaborações científicas internacionais — o Observatório Pierre Auger e o Cherenkov Telescope Array Observatory (CTAO). Atualmente, Luiz Vitor ocupa a presidência do Conselho Superior do Consórcio Cherenkov Telescope Array, além de exercer a função de assessor da Diretoria Científica da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
Sua participação na cerimônia assume especial significado, considerando as responsabilidades institucionais que desempenha num dos mais ambiciosos projetos científicos internacionais dedicados à investigação do Universo.
A inauguração dos equipamentos representa também um momento importante para a participação brasileira na ciência internacional, especialmente para São Carlos, cidade que abriga um dos mais importantes centros de pesquisa em física do país e cujos pesquisadores participam de iniciativas científicas de grande relevância mundial.
Quatro gigantescos telescópios para observar o invisível
Os novos equipamentos integram o chamado Large-Sized Telescope (LST), um conjunto de telescópios de grande porte que constitui uma das principais estruturas do CTAO, observatório internacional destinado a investigar os raios gama, uma forma extremamente energética de radiação produzida em alguns dos acontecimentos mais violentos do Universo.
Cada um dos quatro telescópios possui um refletor de vinte e três metros de diâmetro e está equipado com câmeras ultrarrápidas, capazes de registrar sinais luminosos extremamente breves e de intensidade muito reduzida.
Diferentemente dos telescópios convencionais, que observam diretamente a luz proveniente de estrelas, planetas e galáxias, esses instrumentos procuram identificar pequenos flashes luminosos produzidos na atmosfera terrestre quando raios gama de altíssima energia provenientes do espaço interagem com as partículas do ar.
Esse fenômeno, conhecido como “Radiação Cherenkov”, permite aos pesquisadores estudar indiretamente acontecimentos cósmicos que não poderiam ser observados com a mesma precisão pelos instrumentos tradicionais.
A sensibilidade dos novos telescópios permitirá identificar fontes de radiação extremamente distantes, investigar explosões cósmicas de curta duração e acompanhar alterações que ocorrem em regiões do Universo onde a matéria é submetida a condições físicas extremas.
O primeiro equipamento do conjunto, denominado LST-1, encontra-se em atividade experimental desde 2020 e já proporcionou resultados importantes, incluindo observações de pulsares — estrelas extremamente densas que emitem radiação de maneira periódica —, estudos de regiões centrais de galáxias distantes e o acompanhamento de intensas explosões de raios gama.
Agora, com a incorporação dos telescópios LST-2, LST-3 e LST-4, os pesquisadores poderão observar simultaneamente os mesmos fenômenos a partir de diferentes posições, obtendo informações muito mais precisas sobre a direção, a intensidade e a energia da radiação detectada.
Essa capacidade conjunta representa um avanço significativo em relação às observações realizadas com apenas um telescópio.
Uma viagem científica ao passado do Universo
Uma das perspectivas mais fascinantes proporcionadas por esses equipamentos está relacionada com a possibilidade de investigar acontecimentos ocorridos há aproximadamente 12 bilhões de anos, numa época em que o Universo tinha menos de dois bilhões de anos de existência.
Como a luz necessita de tempo para percorrer as enormes distâncias que separam as galáxias da Terra, observar objetos extremamente distantes significa, na prática, estudar o passado do próprio Universo.
Os novos telescópios poderão detectar sinais provenientes de fontes cósmicas muito remotas, oferecendo aos cientistas a possibilidade de compreender melhor como se comportavam os fenômenos de alta energia nas primeiras etapas da evolução cósmica.
Outro objetivo fundamental consiste em investigar os mecanismos responsáveis pela aceleração de partículas a energias extraordinárias, muito superiores às que podem ser alcançadas em grande parte dos aceleradores construídos pelo ser humano.
Entre os principais objetos de investigação encontram-se os buracos negros supermassivos, as estrelas de nêutrons e as explosões de raios gama, fenômenos que libertam enormes quantidades de energia e desafiam constantemente os conhecimentos atuais da Física.
As observações também poderão contribuir para pesquisas relacionadas com a matéria escura, componente ainda não identificado diretamente e que, segundo os modelos cosmológicos atuais, desempenha um papel fundamental na estrutura e evolução do Universo.
Embora os novos instrumentos não garantam, por si só, respostas definitivas para essas questões, deverão fornecer informações essenciais para testar teorias e desenvolver novas interpretações sobre o funcionamento do cosmos.
A importância da participação brasileira e do IFSC/USP
A presença do Prof. Luiz Vitor de Souza Filho na inauguração merece destaque não apenas pela sua condição de pesquisador do IFSC/USP, mas também pela posição de liderança que ocupa no Consórcio Cherenkov Telescope Array.
O consórcio reúne cientistas e instituições de diferentes países envolvidos na preparação e exploração científica do observatório, constituindo um importante espaço de colaboração internacional na área da astrofísica de altas energias.
A presidência do seu Conselho Superior coloca o pesquisador brasileiro numa posição institucional relevante dentro dessa estrutura de cooperação científica.
Sua participação nos experimentos Pierre Auger e CTAO também evidencia a continuidade de uma trajetória dedicada à investigação de fenômenos cósmicos de altíssima energia.
O Observatório Pierre Auger, localizado na Argentina, dedica-se ao estudo dos raios cósmicos de energias extremamente elevadas, enquanto o CTAO procura investigar o Universo por meio da detecção de raios gama. Embora utilizem métodos diferentes, os dois empreendimentos contribuem para esclarecer questões fundamentais relacionadas com a origem e o comportamento das partículas mais energéticas conhecidas.
Nesse contexto, a atuação de Luiz Vitor representa uma importante ligação entre a pesquisa científica desenvolvida no Brasil e algumas das maiores iniciativas internacionais da astrofísica contemporânea.
Para o IFSC/USP, essa participação constitui mais um exemplo da dimensão internacional das atividades científicas realizadas em São Carlos, particularmente numa área do conhecimento que exige equipamentos sofisticados, investimentos expressivos e a cooperação permanente entre pesquisadores de diferentes nacionalidades.
Trata-se, igualmente, de uma demonstração da importância de manter e fortalecer a presença brasileira em projetos científicos de grande escala, permitindo que instituições e pesquisadores do país participem diretamente dos avanços tecnológicos e das descobertas que poderão transformar o conhecimento sobre o Universo.
Um observatório com mais de 60 telescópios
O conjunto, inaugurado em La Palma, integra uma infraestrutura científica ainda mais ampla.
O Cherenkov Telescope Array Observatory foi concebido para se tornar o maior e mais poderoso observatório terrestre dedicado à astronomia de raios gama, reunindo mais de 60 telescópios distribuídos por dois locais de observação.
No hemisfério Norte, os equipamentos estão instalados no Observatório Roque de los Muchachos, na Espanha. No hemisfério Sul, o projeto prevê instalações no Observatório Paranal, situado no Deserto do Atacama, no Chile.
Essa distribuição geográfica permitirá ampliar a cobertura do céu e observar diferentes regiões do Universo.
O observatório utilizará três categorias de telescópios — grandes, médios e pequenos —, cada uma desenvolvida para investigar diferentes faixas de energia.
O conjunto de instrumentos deverá proporcionar uma capacidade de observação sem precedentes, abrangendo desde fenômenos associados a fontes cósmicas distantes até acontecimentos de energia extremamente elevada.
Outro aspecto importante está relacionado com a quantidade de informações que será produzida. O CTAO deverá gerar enormes volumes de dados científicos, exigindo sistemas avançados de processamento, armazenamento e análise computacional.
O empreendimento também pretende adotar um modelo de ciência aberta, disponibilizando dados científicos e ferramentas de análise à comunidade de pesquisadores, ampliando as possibilidades de colaboração e de produção de novos conhecimentos.
A construção do observatório resulta de mais de quinze anos de cooperação internacional, envolvendo avanços tecnológicos em óptica, sistemas eletrônicos, detectores de luz e mecanismos de elevada precisão.
Para o Prof. Masahiro Teshima, pesquisador principal da Colaboração LST e porta-voz do Consórcio CTAO, a conclusão desse conjunto de telescópios representa o resultado de um longo trabalho coletivo de desenvolvimento científico e tecnológico.
Novas perspectivas para a ciência mundial
Embora a inauguração dos quatro telescópios represente uma conquista importante, os equipamentos ainda deverão passar por etapas de testes, ajustes e integração antes de atingirem plenamente a capacidade científica prevista.
A expectativa é que, progressivamente, os instrumentos ampliem as possibilidades de investigação sobre alguns dos fenômenos mais complexos da natureza.
Mais do que observar regiões distantes do espaço, o objetivo dos pesquisadores é compreender os processos físicos responsáveis pela produção de energias extraordinárias, investigar a origem dos raios cósmicos e procurar sinais que possam contribuir para esclarecer a natureza da matéria escura.
São questões que ultrapassam os limites da astronomia tradicional e envolvem diretamente a Física de partículas e a cosmologia, áreas fundamentais para compreender a origem, a composição e a evolução do Universo.
Para São Carlos e para o IFSC/USP, a presença de Luiz Vitor de Souza Filho nessa cerimônia internacional reforça a importância da participação brasileira nas grandes iniciativas científicas mundiais.
Ao integrar uma estrutura de liderança do Consórcio Cherenkov Telescope Array, o pesquisador contribui para a presença institucional do país num empreendimento que poderá protagonizar algumas das mais importantes descobertas da astrofísica nas próximas décadas.
A inauguração dos telescópios de La Palma simboliza, assim, não apenas a conclusão de uma etapa tecnológica, mas também o início de novas possibilidades para a investigação científica.
Afinal, quanto maior for a capacidade da humanidade de observar os fenômenos mais distantes e energéticos do cosmos, maiores serão também as oportunidades de encontrar respostas para perguntas que continuam a desafiar a ciência: como surgiram as estruturas do Universo, de onde provêm as partículas cósmicas mais energéticas e quais são, verdadeiramente, os mecanismos que governam os acontecimentos mais extremos da natureza.
Uma Nova Era na Exploração do Universo Extremo: Inauguração do Subconjunto de Telescópios de Grande Porte no CTAO-Norte La Palma (Espanha)
Uma Nova Era na Exploração do Universo Extremo
EMBARGO - 15 de outubro de 2026.
Duzentos e cinquenta cientistas e representantes de importantes instituições de pesquisa de todo o mundo celebraram a inauguração do subconjunto de Telescópios de Grande Porte (LSTs) no sítio CTAO-Norte, no Observatório Roque de los Muchachos, em La Palma, Ilhas Canárias - Espanha.
A conclusão dos quatro telescópios marca um marco significativo para a comunidade global de astrofísica e representa um passo crucial rumo à operação científica plena do Observatório Cherenkov Telescope Array (CTAO).
Cada telescópio possui um refletor de 23 metros de diâmetro e está equipado com câmeras ultrarrápidas de última geração.
Projetados para detectar os tênues flashes de luz Cherenkov gerados quando raios gama de altíssima energia interagem com a atmosfera terrestre, os LSTs são os instrumentos mais sensíveis do mundo para a observação de raios gama em energias que variam de aproximadamente 20 gigaeletronvolts (GeV) a vários teraeletronvolts (TeV).
Essa sensibilidade excepcional é fundamental para a detecção de fontes de raios gama distantes e transientes.
Como os raios gama de altíssima energia são progressivamente absorvidos ao viajarem pelo Universo, o limiar de baixa energia dos LSTs permite aos cientistas investigar fontes a distâncias cosmológicas, observar períodos mais remotos da história cósmica e acompanhar a variabilidade de curtíssima duração de fontes de raios gama em evolução dinâmica com maior precisão estatística.
Um pioneiro produtivo: o LST-1
Mesmo durante sua fase de comissionamento, o protótipo do Telescópio de Grande Porte (LST-1) tem produzido resultados inovadores desde 2020.
Entre eles, destacam-se observações de pulsares, estudos de núcleos galácticos ativos a distâncias cosmológicas e observações de acompanhamento rápido de fenômenos transientes, como novas e explosões de raios gama (GRBs).
Com a incorporação dos três novos LSTs (LST-2, LST-3 e LST-4) ao LST-1 já existente, os quatro telescópios formarão um verdadeiro arranjo.
Ao observar simultaneamente os mesmos chuveiros de raios gama a partir de múltiplas direções, o subarranjo proporcionará sensibilidade, resolução angular e reconstrução de energia substancialmente aprimoradas, permitindo um novo nível de precisão no estudo do Universo em raios gama.
"A conclusão do subarranjo de LSTs é o ponto culminante de mais de quinze anos de colaboração internacional e inovação tecnológica", afirmou o Prof. Masahiro Teshima, Pesquisador Principal da Colaboração LST e Porta-voz do Consórcio CTAO.
"Esses telescópios nos permitirão explorar alguns dos ambientes mais extremos do Universo, incluindo buracos negros supermassivos, estrelas de nêutrons, as possíveis origens dos raios cósmicos e a natureza da matéria escura."
Explorando o Universo primordial
Os LSTs constituem o núcleo de baixa energia do CTAO-North e oferecerão uma oportunidade única de investigar o Universo em uma época situada há cerca de 12 bilhões de anos, quando ele tinha menos de dois bilhões de anos de idade.
Sua sensibilidade aos raios gama de mais baixa energia permitirá a detecção e o estudo de intensas rajadas de raios gama de altíssima energia (VHE) em alto desvio para o vermelho (*redshift*), potencialmente estendendo as observações de raios gama a fontes com *redshift* em torno de z∼4 e fornecendo novas perspectivas sobre o Universo primordial.
Nos próximos anos, os LSTs passarão pelas fases de comissionamento e integração às operações do CTAO.
Juntamente com os demais telescópios do CTAO — planejados para ambos os seus arranjos —, eles abordarão questões fundamentais da astrofísica, da física de partículas e da cosmologia, como a natureza da matéria escura, a origem dos raios cósmicos e a física de aceleradores cósmicos extremos.
Sobre a Colaboração LST
A Colaboração LST (*Large-Sized Telescope*) é um consórcio internacional de cientistas, engenheiros e instituições dedicado ao projeto, à construção e ao comissionamento dos LSTs para o CTAO.
A colaboração desenvolveu tecnologias avançadas em óptica, fotodetectores, mecânica e eletrônica de alta velocidade para alcançar o menor limiar de energia já atingido por observatórios de raios gama baseados em solo.
O projeto foi viabilizado por uma sólida parceria internacional, envolvendo instituições do Brasil, Bulgária, República Tcheca, Croácia, França, Alemanha, Itália, Japão, Polônia, Espanha e Suíça.
Sobre o CTAO
O CTAO (Cherenkov Telescope Array Observatory; www.ctao.org) será o maior e mais poderoso observatório de astronomia de raios gama do mundo.
A precisão sem precedentes e a ampla faixa de energia (20 GeV – 300 TeV) do CTAO ajudarão a abordar algumas das questões mais intrigantes da astrofísica, abrangendo três temas principais: compreender a origem e o papel de partículas cósmicas relativísticas; investigar ambientes extremos, como buracos negros ou estrelas de nêutrons; e explorar fronteiras da física, buscando matéria escura ou desvios da teoria da relatividade de Einstein.
Para cobrir sua ampla faixa de energia, o CTAO utilizará três tipos de telescópios: o Telescópio de Grande Porte (LST), o Telescópio de Porte Médio (MST) e o Telescópio de Pequeno Porte (SST). Mais de 60 telescópios serão distribuídos entre duas estações de observação: o CTAO-Norte, no hemisfério norte, no Observatório Roque de los Muchachos em La Palma, Espanha; e o CTAO-Sul, no hemisfério sul, no Observatório Paranal, no Deserto do Atacama, Chile.
O CTAO é um projeto de *Big Data*. O Observatório gerará centenas de petabytes (PB) de dados por ano (~12 PB após compressão).
Com base em seu compromisso com a Ciência Aberta, o CTAO será o primeiro observatório de raios gama desse tipo a operar como um observatório aberto, baseado em propostas, oferecendo acesso público aos seus dados científicos de alto nível e produtos de software.
A Organização Central do CTAO (legalmente, o CTAO ERIC) é responsável pela construção e operação do Observatório, bem como pela gestão dos quatro locais do CTAO. Os membros do CTAO ERIC incluem Áustria, Croácia, República Tcheca, Observatório Europeu do Sul (ESO), França, Alemanha, Itália, Polônia, Eslovênia, Espanha e Suíça.
Os Países Baixos também fazem parte do CTAO ERIC como Observadores. Outros países contribuintes — Austrália, Brasil, Japão, África do Sul e Estados Unidos — estão em processo de adesão ao CTAO ERIC como Parceiros Estratégicos ou Terceiras Partes.
Esse grupo trabalha em estreita cooperação com parceiros de todo o mundo, incluindo colaborações de contribuição em espécie (*in-kind*) que desenvolvem hardware e software essenciais, bem como o Consórcio CTAO, um grupo de pesquisadores que trabalha na exploração científica do Observatório.
Contatos Colaboração LST: Prof. Masahiro Teshima Investigador Principal (PI) do LST Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. (Inglês e japonês) Equipe de Divulgação do LST Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. (Inglês, italiano e espanhol) COMUNICADOS DE IMPRENSA NACIONAIS: VOCÊ PODE INSERIR AQUI UM CONTATO QUE FALE O IDIOMA NACIONAL CTAO (Cherenkov Telescope Array Observatory): Escritório de Comunicação do CTAO Dra. Alba Fernández-Barral Chefe de Comunicação do CTAO Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. (Inglês, espanhol e italiano)
O Prof. Luiz Vitor de Souza Filho é docente e pesquisador do IFSC/USP e membro dos experimentos Pierre Auger e CTA - Cherenkov Telescope Array Observatory. Atualmente é o presidente do Conselho Superior do Consórcio Cherenkov Telescope Array, Assessor da diretoria científica da FAPESP,
São Carlos ganha protagonismo em rede da USP que aproxima ciência e indústria. Com quase cem projetos desenvolvidos com empresas, 40 produtos colocados no mercado e mais de R$ 160 milhões em tributos gerados, polo são-carlense ocupa posição estratégica na Rede Embrapii USP, coordenada pelo docente e pesquisador do IFSC/USP, Prof. Vanderlei Bagnato.
SÃO CARLOS/SP - Transformar conhecimento científico em produtos, tecnologias e soluções capazes de chegar à sociedade é um dos grandes desafios das universidades brasileiras. Na USP, essa aproximação entre laboratórios e empresas ganha agora uma estrutura mais ampla com a consolidação da “Rede Embrapii USP”, que reúne dez centros de pesquisa da Universidade e tem em São Carlos um de seus principais polos de inovação.
Os números ajudam a dimensionar esse protagonismo. Somente o polo são-carlense acumula quase cem projetos desenvolvidos em parceria com o setor industrial. Desse trabalho resultaram 40 produtos introduzidos no mercado e mais de R$ 160 milhões em arrecadação de tributos.
Por trás dos números está uma estratégia que pretende fazer com que a excelência científica existente na Universidade atravesse as paredes dos laboratórios e encontre problemas concretos apresentados pelas empresas e pela sociedade.
Essa é também uma das ideias defendidas pelo Prof. Vanderlei Salvador Bagnato, do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), coordenador da “Rede Embrapii USP” e da “Unidade Embrapii USP/IFSC”, sendo que, para ele “Os grandes desafios tecnológicos contemporâneos já não podem ser enfrentados de forma isolada. A inovação não é um tópico isolado; ela é multidisciplinar. Sem atuar em rede, não conseguimos fazer inovação transversal”, afirma Bagnato.
A proposta ganhou força com o “Primeiro Encontro da Rede Embrapii USP”, realizado no dia 17 deste mês de setembro, no Centro de Treinamento do Instituto de Radiologia (InRad) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo.
Pela primeira vez, coordenadores e pesquisadores dos centros credenciados reuniram-se presencialmente para discutir como conhecimentos produzidos em áreas tão diferentes quanto física, saúde, inteligência artificial, engenharia, química, agricultura e desenvolvimento de fármacos podem ser combinados para solucionar problemas apresentados pelo setor produtivo.
O encontro marcou ainda a incorporação do “Inova-HC” à rede, elevando para dez o número de centros participantes.
São Carlos como polo de inovação
A presença de São Carlos nessa estrutura é particularmente significativa. O campus reúne dois dos integrantes da “Rede Embrapii USP”: o Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP) e o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC/USP), colocando lado a lado competências que passam pela física, biofotônica, instrumentação, computação e inteligência artificial.
No IFSC/USP, a relação com empresas já possui uma trajetória consolidada. Credenciada pela Embrapii desde 2017, a unidade atua especialmente nas áreas de biofotônica e instrumentação, aproximando a pesquisa científica de aplicações tecnológicas.
Na prática, isso significa utilizar conhecimentos de fronteira desenvolvidos na Universidade para criar equipamentos, processos e soluções capazes de responder a necessidades reais.
Essa aproximação pode ser observada em projetos recentes. Em parceria com empresas, pesquisadores do IFSC/USP vêm trabalhando, por exemplo, no desenvolvimento de tecnologias que combinam laser terapêutico e sistemas de compressão pneumática para recuperação muscular. A unidade também acumula experiência no desenvolvimento de tecnologias fotônicas voltadas à área médica.
Mais do que casos isolados, esses projetos ajudam a mostrar como a pesquisa acadêmica pode percorrer um caminho que começa na investigação científica e termina em uma tecnologia potencialmente disponível para empresas, profissionais e população.
É justamente esse percurso que a “Rede Embrapii USP” pretende ampliar.
Uma rede para derrubar fronteiras
Criada em outubro de 2025, a rede surgiu com a missão de integrar competências que já existiam dentro da própria Universidade, mas que nem sempre trabalhavam de maneira articulada.
A lógica é que uma empresa com determinado desafio tecnológico não precise encontrar todas as respostas em um único laboratório. Um projeto iniciado na física pode necessitar de inteligência artificial; uma solução médica pode depender da engenharia; uma inovação industrial pode exigir novos materiais, química ou ciência de dados.
Ao conectar esses grupos, a USP procura criar uma espécie de porta de entrada para projetos de maior complexidade.
Além do IFSC/USP e do ICMC/USP, participam da rede grupos da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ), Instituto de Química (IQSint), Centro de Inovação em Fármacos (CEINFAR), Escola Politécnica — por meio das unidades TecnoGreen, Powertrain e Centro de Inovação em Construção Sustentável (CICS Poli) — e o Inova-HC.
Para Bagnato, três conceitos são fundamentais nesse processo: abrangência, regionalidade e parceria com a indústria.
A abrangência está na diversidade de conhecimentos reunidos. A regionalidade permite que a capacidade científica da USP alcance empresas instaladas em diferentes pontos do Estado. E a parceria pressupõe uma relação que vá além da simples prestação de serviços. “Nós queremos ser verdadeiros parceiros de inovação”, afirma o pesquisador.
Isso significa que a Universidade não deve apenas receber um problema da empresa e executar uma tarefa previamente estabelecida. Seus pesquisadores podem participar da própria construção da solução, alterando caminhos científicos e tecnológicos quando os obstáculos encontrados durante o projeto assim exigirem.
Ciência excelente e ciência relevante
Essa concepção toca em uma questão que acompanha o próprio debate sobre o papel das universidades públicas: como conciliar a pesquisa voltada à expansão das fronteiras do conhecimento com a necessidade de responder aos problemas da sociedade?
Para Bagnato, essas duas dimensões não são concorrentes. Ao contrário, devem caminhar juntas.
O professor distingue aquilo que chama de “ciência excelente”, responsável por ampliar o conhecimento e formar pesquisadores altamente qualificados, da “ciência relevante”, direcionada à solução de problemas concretos apresentados pela sociedade e pelo setor produtivo.
A inovação surge justamente no encontro entre essas duas vertentes.
Essa visão ajuda a explicar por que São Carlos ocupa posição importante no projeto. Ao longo de décadas, a cidade consolidou um ambiente de pesquisa marcado pela interação entre diferentes áreas do conhecimento e pela presença de universidades, centros de pesquisa e empresas de base tecnológica.
Com a “Rede Embrapii USP”, essa experiência passa a integrar uma estrutura que abrange diferentes campi e áreas da Universidade.
O modelo financeiro também procura diminuir um dos obstáculos tradicionais enfrentados pelas empresas quando decidem investir em pesquisa de maior risco tecnológico. Os projetos funcionam pelo sistema conhecido como matching money: aproximadamente um terço dos recursos é aportado pela Embrapii, outro terço pelas empresas participantes e a parcela restante corresponde à contribuição da Universidade, por meio de pesquisadores, infraestrutura, equipamentos e conhecimento acumulado.
Ao compartilhar custos e riscos, o sistema permite que empresas avancem em projetos que poderiam ser difíceis de desenvolver isoladamente.
Do laboratório para o mercado
O desafio, porém, não termina com uma descoberta científica. Entre uma boa ideia produzida dentro da Universidade e um produto disponível no mercado existe um percurso que envolve desenvolvimento tecnológico, testes, validações, propriedade intelectual, investimentos e capacidade industrial.
É justamente nessa travessia que a “Rede Embrapii USP” pretende atuar.
O primeiro encontro presencial mostrou que, mais do que reunir dez centros sob uma mesma denominação, a intenção é criar mecanismos para que eles efetivamente trabalhem juntos. A programação foi dedicada à apresentação das competências de cada unidade e terminou com uma mesa-redonda sobre experiências práticas, relacionamento com empresas e formas de tornar mais ágil a transferência das tecnologias desenvolvidas na Universidade.
Nesse cenário, a experiência acumulada pelo IFSC/USP e pelo polo de São Carlos funciona como uma demonstração concreta do potencial dessa aproximação.
Os quase cem projetos realizados com empresas e os 40 produtos que chegaram ao mercado indicam que a conexão entre ciência e indústria pode produzir resultados que ultrapassam os indicadores acadêmicos.
Para Bagnato, é justamente aí que está um dos sentidos da inovação dentro de uma universidade pública: fazer com que o conhecimento de excelência produzido por seus pesquisadores também se transforme em respostas aos desafios encontrados fora dela.
Ao reunir física, inteligência artificial, medicina, engenharia, química, agricultura e outras áreas em uma mesma estrutura de cooperação, a “Rede Embrapii USP” aposta que a próxima grande inovação poderá não nascer de um único laboratório.
Ela poderá surgir justamente da conexão entre eles.
(Texto adaptado de notícia veiculada pelo “Jornal da USP” em 18 de setembro de 2026, da autoria de Michel Sitnik)
SÃO CARLOS/SP - Uma tecnologia desenvolvida por pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos pode representar um importante avanço no combate ao câncer de pele.
O estudo demonstra que microagulhas biodegradáveis, além de transportarem medicamentos diretamente para o interior da pele, também conseguem distribuir de forma mais eficiente a luz utilizada na terapia fotodinâmica, aumentando o potencial de destruição das células tumorais.
A pesquisa foi publicada na revista científica Journal of Biomedical Optics, tendo sido destaque no portal da SPIE - uma importante sociedade internacional focada em óptica e fotônica - https://spie.org/news/microneedles-may-help-light-reach-hard-to-treat-skin-cancers, abrindo caminho para tratamentos mais eficazes, menos invasivos e de aplicação relativamente simples.
Contextualizando
O câncer de pele é o tipo de tumor mais frequente em diversos países e, embora muitos casos possam ser tratados com cirurgia, nem todos os pacientes são candidatos ao procedimento. Lesões extensas, tumores localizados em áreas delicadas do corpo ou pacientes com limitações clínicas frequentemente necessitam de alternativas terapêuticas. Entre elas está a terapia fotodinâmica, considerada um tratamento seletivo porque destrói preferencialmente as células doentes, preservando os tecidos saudáveis ao redor.
Entretanto, essa técnica enfrenta uma limitação importante: a luz utilizada para ativar o medicamento não consegue penetrar profundamente na pele. Quanto mais espesso for o tecido ou mais profundo estiver o tumor, menor é a quantidade de luz que chega ao local, o que reduz a eficácia do tratamento. Esse obstáculo limita o uso da terapia em determinados tipos de lesões cutâneas.
Foi justamente para solucionar esse problema que os pesquisadores desenvolveram um sistema baseado em microagulhas dissolvíveis. Fabricadas com material biocompatível e biodegradável, elas atravessam apenas as camadas superficiais da pele, sem causar dor. Após a aplicação, as microagulhas dissolvem-se naturalmente, entregando a medicação em camadas mais profundas do que o creme.
Inovação
A inovação está no fato de que essas microagulhas exercem duas funções simultaneamente. A primeira já era conhecida: criar pequenos canais que permitem que o medicamento alcance regiões mais profundas da pele de maneira muito mais eficiente do que quando aplicado apenas na superfície.
A segunda função, explorada durante a pesquisa, foi que devido ao seu formato piramidal e às propriedades ópticas do material utilizado, as microagulhas funcionam como minúsculos condutores de luz. Em vez de permitir que a iluminação percorra apenas um caminho reto, as microagulhas modificam o padrão de propagação, espalhando a luz em diferentes direções e aumentando a área efetivamente iluminada.
Na prática, isso significa que o medicamento ativado pela luz pode agir de forma mais uniforme em todo o tumor. Nos tratamentos convencionais, a maior intensidade luminosa costuma concentrar-se na superfície da pele, enquanto as regiões mais profundas recebem pouca energia. Como consequência, algumas células cancerígenas podem sobreviver ao tratamento.
Com a utilização das microagulhas, além da entrega da molécula ser mais profunda, a distribuição luminosa torna-se mais homogênea, aumentando as chances de que toda a extensão da lesão receba energia suficiente para ativar o medicamento e e promover maior dano às células malignas. Segundo os autores do estudo, trata-se de um efeito complementar extremamente importante, já que o dispositivo reúne, em um único sistema, a entrega localizada do fármaco e a otimização da iluminação terapêutica.
Os pesquisadores realizaram uma série de análises laboratoriais para verificar como a luz se comportava ao atravessar as microagulhas. Os resultados mostraram que a geometria do dispositivo provoca múltiplas reflexões internas da luz, permitindo que ela seja distribuída lateralmente e alcance regiões que normalmente permaneceriam pouco iluminadas. Isso representa uma vantagem significativa para terapias que dependem da ativação luminosa dos medicamentos.
Outro aspecto destacado pelo estudo é a simplicidade do sistema.
Microagulhas que se dissolvem
Como as microagulhas são produzidas com polímeros biodegradáveis e se dissolvem após a aplicação, os autores sugerem que o dispositivo tem potencial para ser produzido em larga escala a um custo relativamente baixo, o que favorece sua utilização em clínicas ambulatoriais e até mesmo em regiões com infraestrutura limitada.
Os autores também destacam que a plataforma poderá ir além do tratamento do câncer de pele. A combinação entre a administração localizada de medicamentos e a distribuição eficiente de luz pode ser adaptada a outras doenças dermatológicas que utilizam terapias baseadas em luz, além de abrir novas possibilidades para tratamentos que exijam maior precisão na entrega de medicamentos.
Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores fazem uma ressalva importante: a tecnologia ainda está em fase experimental.
Os testes apresentados demonstram o comportamento óptico e funcional das microagulhas em ambiente de laboratório, mas ainda serão necessários estudos pré-clínicos e ensaios clínicos para confirmar sua segurança, eficácia e desempenho em pacientes. Somente após essas etapas será possível avaliar sua incorporação à prática médica.
Expectativas para o futuro
Caso os estudos futuros confirmem o potencial observado nesta pesquisa, as microagulhas biodegradáveis poderão representar uma nova geração de dispositivos médicos capazes de unir duas funções fundamentais — a aplicação precisa de medicamentos e a distribuição inteligente da luz — em um único equipamento.
A expectativa é que essa abordagem aumente a eficácia da terapia fotodinâmica, reduza a necessidade de procedimentos mais invasivos e amplie o acesso a tratamentos modernos para pacientes com câncer de pele e outras doenças dermatológicas.
Para a primeira autora da pesquisa publicada no Journal of Biomedical Optics, Drª Michelle Requena, que concluiu seu mestrado, doutorado e pós-doutorado no Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP) e que atualmente realiza um novo pós-doutorado no Departamento de Engenharia Biomédica da Texas AM University (EUA) “É muito gratificante ver esse trabalho ganhar visibilidade, especialmente por representar a evolução de uma linha de pesquisa iniciada em 2017 durante o meu doutorado”, acrescentando que, desde então, a equipe tem buscado desenvolver estratégias para superar duas das principais limitações da terapia fotodinâmica no tratamento do câncer de pele, e que são a distribuição do fotossensibilizador e a penetração da luz no tecido.
“Após termos demonstrado que microagulhas dissolvíveis carregadas com ácido aminolevulínico melhoram a entrega do fotossensibilizador no tumor, este estudo explora uma segunda função dessas estruturas: promover uma distribuição mais homogênea da luz no tecido. Assim, as microagulhas passam a atuar não apenas como sistema de liberação do fármaco, mas também como moduladoras da propagação da luz, reunindo, em uma única plataforma, dois componentes essenciais à terapia fotodinâmica”, conclui a pesquisadora.
Embora ainda sejam necessários estudos pré-clínicos para validar essa abordagem em condições fisiológicas, os resultados da pesquisa representam um avanço importante no desenvolvimento de terapias mais eficazes para tumores cutâneos espessos e de difícil tratamento, com potencial para ampliar as aplicações da TFD e, futuramente, beneficiar um número maior de pacientes com câncer de pele.
Confira no link o artigo científico original relativo a esta pesquisa -
BRASÍLIA/DF - No primeiro turno da disputa presidencial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece numericamente à frente do senador Flávio Bolsonaro (PL), com 41% das intenções de voto contra 37%, segundo pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira (3). Considerando a margem de erro, os dois estão tecnicamente empatados.
A intenção de voto em Lula oscilou negativamente um ponto porcentual em relação ao levantamento anterior, divulgado em 27 de julho, quando o petista registrou 42%. Flávio Bolsonaro, por outro lado, avançou quatro pontos porcentuais, passando de 33% para 37%.
Na pesquisa anterior, Lula tinha nove pontos porcentuais de vantagem sobre Flávio no primeiro turno. No levantamento divulgado nesta segunda-feira, a diferença caiu para quatro pontos.
O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) aparece em terceiro lugar, com 5%, tecnicamente empatado com o ativista Renan Santos (Missão), que tem 4%, e com o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo), com 3%.
Brancos, nulos ou eleitores que não escolheriam nenhum candidato somam 4%. Outros 3% não souberam responder.
A Nexus entrevistou, por telefone, 2.002 pessoas com 16 anos ou mais, entre 31 de julho e 2 de agosto. A margem de erro é de dois pontos porcentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o código BR-02874/2026.
por Estadao Conteudo
SÃO CARLOS/SP - Uma descoberta na área da biologia celular está lançando nova luz sobre a maneira como as células administram um dos nutrientes mais importantes para sua sobrevivência: a glutamina. Presente naturalmente no organismo e obtida também por meio da alimentação, ela é indispensável para a produção de energia, a renovação dos tecidos, o fortalecimento do sistema imunológico e a recuperação do organismo após lesões ou infecções. Também exerce um papel importante no crescimento de células cancerígenas.
Em uma revisão publicada na revista Biochemical Society Transactions, pesquisadores reuniram evidências de que algumas proteínas responsáveis por utilizar a glutamina conseguem mudar de comportamento quando a célula enfrenta situações de estresse, como escassez de nutrientes ou alterações no metabolismo.
Em vez de permanecerem dispersas, essas proteínas podem se agrupar e formar longas estruturas temporárias, semelhantes a pequenos filamentos. O que os pesquisadores descobriram foi que os filamentos reorganizam as mitocôndrias, como se representassem um ganho de função, protegendo-as de um fenômeno de reciclagem de organelas que as células lançam mão quando tem pouco nutrientes (mitofagia).
Os pesquisadores verificaram que esse comportamento não ocorre apenas em uma proteína específica. Diversas proteínas ligadas ao aproveitamento da glutamina apresentam capacidade semelhante, sugerindo que esse seja um mecanismo amplamente utilizado pelas células para manter o equilíbrio do organismo.
A descoberta pode trazer benefícios importantes para a saúde humana. Ao compreender melhor como as células regulam o uso da glutamina, os cientistas poderão desenvolver medicamentos capazes de atuar com maior precisão sobre esse processo.
Na área da oncologia, por exemplo, o conhecimento poderá contribuir para criar terapias que reduzam o fornecimento de glutamina às células tumorais, dificultando seu crescimento e sua multiplicação, ao mesmo tempo em que preservam o funcionamento das células saudáveis. Essa abordagem pode resultar em tratamentos mais eficazes e com menor risco de efeitos colaterais.
Os resultados também podem beneficiar pacientes com doenças inflamatórias, autoimunes e metabólicas. Como a glutamina participa da resposta imunológica e da recuperação dos tecidos, compreender seus mecanismos de controle poderá favorecer o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas para acelerar a cicatrização, melhorar a recuperação após cirurgias, fortalecer pacientes em tratamento intensivo e reduzir complicações decorrentes de doenças crônicas.
Outro campo que poderá ser beneficiado é o das doenças neurodegenerativas. Alterações no metabolismo celular estão associadas a enfermidades como Alzheimer, Parkinson e esclerose lateral amiotrófica (ELA). Embora ainda sejam necessárias novas pesquisas, entender como as células controlam esse nutriente poderá revelar novos alvos para tratamentos capazes de proteger os neurônios e retardar a progressão dessas doenças.
Os pesquisadores ressaltam que muitas perguntas ainda permanecem sem resposta. Em alguns casos, a formação dos filamentos parece reduzir a atividade das proteínas; em outros, pode protegê-las ou até favorecer seu funcionamento. Esclarecer essas diferenças será uma das próximas etapas da pesquisa.
Apesar de os resultados ainda pertencerem à pesquisa básica, eles representam um avanço importante na compreensão do funcionamento das células. A descoberta demonstra que elas não regulam seu metabolismo apenas por sinais químicos, mas também reorganizando fisicamente suas próprias proteínas para responder de forma rápida e eficiente às necessidades do organismo.
Se esse conhecimento for confirmado por novos estudos, poderá servir de base para uma nova geração de medicamentos voltados ao tratamento do câncer, de doenças metabólicas, inflamatórias e neurodegenerativas, beneficiando milhões de pessoas nas próximas décadas.
A revisão publicada na revista Biochemical Society Transactions tem como pesquisadora correspondente a Drª Sandra Martha Gomes Dias, do Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), com a participação do docente do IFSC/USP, Prof. Dr. André Luís Berteli Ambrosio.
Confira no link o original do estudo publicado
Um estudo internacional com a participação de cientista da USP de São Carlos aponta que terapia fotodinâmica associada a antibióticos pode ampliar a eficácia dos tratamentos e ajudar no combate à resistência bacteriana
SÃO CARLOS/SP - A resistência bacteriana tornou-se uma das maiores ameaças à saúde pública do século XXI. Considerada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um dos principais desafios globais da saúde moderna, ela compromete tratamentos que durante décadas salvaram milhões de vidas e coloca em risco procedimentos rotineiros realizados diariamente em hospitais de todo o mundo.
Nesse cenário, uma pesquisa publicada na revista científica Pharmaceutics apresenta resultados promissores no combate à Klebsiella pneumoniae, uma das bactérias mais perigosas encontradas em ambientes hospitalares.
A Klebsiella pneumoniae é responsável por pneumonias graves, infecções urinárias, infecções da corrente sanguínea e diversas complicações em pacientes internados. O problema se torna ainda mais preocupante porque muitas cepas da bactéria desenvolveram resistência a múltiplos antibióticos, reduzindo drasticamente as opções terapêuticas disponíveis. Em alguns surtos hospitalares, a mortalidade associada às infecções por cepas resistentes pode atingir níveis alarmantes.
Os hospitais estão entre os ambientes mais vulneráveis à disseminação dessas bactérias. O fato do uso necessário de terapias com antibióticos no ambiente hospitalar, permite desenvolvimento de resistência de forma rápida. Pacientes imunossuprimidos, pessoas submetidas a cirurgias, usuários de ventilação mecânica e indivíduos internados em unidades de terapia intensiva formam um grupo especialmente vulnerável. Quando uma bactéria multirresistente se estabelece em uma instituição de saúde, os custos aumentam, os períodos de internação se prolongam e os riscos de complicações e óbitos crescem significativamente.
Ameaça social e econômica
Além do impacto direto sobre os pacientes, a resistência antimicrobiana representa uma ameaça econômica e social de grandes proporções. Especialistas alertam que, caso o problema continue avançando no ritmo atual, procedimentos médicos considerados seguros hoje poderão tornar-se muito mais arriscados no futuro. Transplantes, tratamentos oncológicos, cirurgias cardíacas e até intervenções ortopédicas dependem da eficácia dos antibióticos para prevenir e controlar infecções.
Foi diante desse desafio que pesquisadores da Texas A&M University, nos Estados Unidos, e do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), conseguiram desenvolver uma estratégia inovadora baseada na combinação de antibióticos convencionais com terapia fotodinâmica antimicrobiana. A técnica utiliza substâncias fotossensibilizadoras que, quando expostas à luz, produzem moléculas altamente reativas capazes de danificar estruturas essenciais das bactérias, quebrando sua resistência ao antibiótico, ou tornando a ação do antibiótico amplificada.
No estudo, os cientistas empregaram dois fotossensibilizadores, azul de metileno e Photodithazine, em associação com três antibióticos amplamente utilizados na prática clínica: ciprofloxacino, gentamicina e ceftriaxona. Os experimentos demonstraram que a combinação dos tratamentos foi significativamente mais eficaz do que a utilização isolada dos medicamentos ou da terapia fotodinâmica.
Os resultados revelaram um efeito sinérgico importante. Em termos práticos, isso significa que a ação conjunta da luz, dos fotossensibilizadores e dos antibióticos produziu um efeito superior à simples soma dos tratamentos individuais. Em diversos testes, foi possível obter uma eliminação expressiva da bactéria utilizando doses menores de antibióticos, um aspecto particularmente relevante em uma época marcada pelo aumento da resistência microbiana.
Segundo os pesquisadores, a terapia fotodinâmica provoca danos simultâneos à membrana celular, às proteínas e ao material genético da bactéria. Essa agressão múltipla dificulta o desenvolvimento de mecanismos de resistência e facilita a entrada dos antibióticos na célula bacteriana. Dessa forma, medicamentos que isoladamente apresentam eficácia limitada podem recuperar parte de seu potencial terapêutico quando utilizados em conjunto com a nova abordagem.
Redução do consumo de antibióticos
Outro aspecto importante é que a técnica pode contribuir para reduzir o consumo de antibióticos. Quanto menor a exposição das bactérias a doses elevadas desses medicamentos, menor tende a ser a pressão seletiva que favorece o surgimento de novas cepas resistentes. Trata-se de uma estratégia que não apenas combate infecções atuais, mas também ajuda a preservar a eficácia dos antibióticos para as futuras gerações.
Embora os resultados tenham sido obtidos em condições laboratoriais, os autores consideram que a pesquisa abre uma nova perspectiva para o tratamento de infecções causadas por microrganismos multirresistentes. Os próximos passos incluem estudos em biofilmes bacterianos, modelos animais e futuras avaliações clínicas, etapas essenciais para confirmar a segurança e a eficácia da tecnologia em pacientes.
Para o pesquisador e docente do IFSC/USP, Prof. Dr. Vanderlei Salvador Bagnato, um dos autores correspondentes do artigo científico publicado na revista Pharmaceutics “Em um momento em que as superbactérias desafiam sistemas de saúde em todo o planeta, iniciativas como essa oferecem uma perspectiva animadora. Mais do que uma nova técnica terapêutica, a combinação entre terapia fotodinâmica e antibióticos pode representar uma importante ferramenta para proteger hospitais, salvar vidas e enfrentar uma das maiores ameaças sanitárias da atualidade: a resistência antimicrobiana”, pontua o cientista. Uma linha nova de pesquisa que esta sendo denominada de Foto-antibiótico terapia, que pelos diversos trabalhos do grupo pode ser uma opção importante no combate as infecções resistentes aos antibióticos.
Esta pesquisa contou com os apoios do Cancer Prevention and Research Institute of Texas (USA), Governor’s University Research Initiative (GURI), Chancellor’s Research Initiative (CRI), FAPESP, CNPq e Embrapii.
Confira no link o artigo original publicado na revista Pharmaceutics - https://www.mdpi.com/1999-4923/18/5/587
SÃO CARLOS/SP - Pesquisadores brasileiros, liderados por cientista do IFSC/USP, desenvolveram uma tecnologia inovadora capaz de identificar rapidamente a presença de anticorpos relacionados ao vírus H5N1, causador da gripe aviária. O dispositivo, descrito em estudo publicado na revista científica “ACS Applied Nano Materials”, promete oferecer uma alternativa mais rápida, barata e eficiente aos métodos tradicionais de diagnóstico.
A gripe aviária é uma das doenças que mais preocupam autoridades sanitárias em todo o mundo. Além de provocar grandes prejuízos à produção de aves, o vírus pode infectar seres humanos e, em situações específicas, gerar surtos de grande impacto. Por isso, a detecção precoce é considerada fundamental para evitar a disseminação da doença.
A preocupação em torno do vírus H5N1 vai muito além da saúde animal. Nos últimos anos, especialistas em saúde pública passaram a monitorar com atenção a evolução da gripe aviária devido ao potencial de transmissão para seres humanos e ao risco de surgimento de variantes capazes de se espalhar mais facilmente entre pessoas.
Embora os casos humanos ainda sejam relativamente raros, a taxa de mortalidade observada em infecções por H5N1 é considerada elevada quando comparada à gripe comum. Essa característica faz com que organizações internacionais mantenham vigilância constante sobre a circulação do vírus em diferentes regiões do mundo.
Os impactos econômicos também são expressivos. Surtos de gripe aviária frequentemente levam ao abate preventivo de milhões de aves para conter a disseminação da doença. Como consequência, produtores enfrentam perdas financeiras significativas, enquanto países exportadores sofrem restrições comerciais impostas por mercados internacionais preocupados com a segurança sanitária.
Estudos citados pelos autores da pesquisa mostram que, somente entre 2004 e 2008, países asiáticos registraram prejuízos da ordem de US$ 1 bilhão em decorrência da gripe aviária. As perdas incluíram o descarte de aves, gastos com medidas de controle sanitário e redução das exportações de carne de frango e derivados.
Além dos prejuízos diretos ao setor avícola, surtos da doença podem afetar toda a cadeia produtiva, desde a produção de rações até o transporte, armazenamento e comercialização de alimentos. O receio dos consumidores também costuma provocar queda no consumo, ampliando os impactos econômicos.
Nesse contexto, ferramentas capazes de identificar rapidamente a presença do vírus ou de anticorpos relacionados à infecção tornam-se estratégicas e quanto mais cedo um foco é detectado, maiores são as chances de impedir sua disseminação, reduzindo riscos para a saúde pública e minimizando prejuízos para a economia.
Novo grupo de sensores
O equipamento criado pelos cientistas funciona de maneira semelhante à língua humana. Assim como nossas papilas gustativas identificam diferentes sabores por meio de um conjunto de sinais, o dispositivo utiliza diversos sensores que analisam características da amostra examinada. Por essa razão, os pesquisadores o denominaram “língua eletrônica”.
A novidade está no fato de que os sensores foram produzidos com proteínas obtidas de fontes renováveis e materiais de baixo custo. Quando entram em contato com amostras contendo anticorpos contra o vírus H5N1, os sensores registram alterações elétricas que permitem identificar a presença da infecção.
Durante os testes, a tecnologia demonstrou elevada capacidade de detecção, conseguindo identificar quantidades muito pequenas dos anticorpos. Outro resultado importante foi a ausência de falsos positivos quando o sistema foi exposto a anticorpos de outras doenças comuns em aves, mostrando grande confiabilidade nos diagnósticos.
Os pesquisadores também utilizaram recursos de inteligência artificial para interpretar os dados gerados pelos sensores. O sistema alcançou cerca de 99% de precisão ao diferenciar amostras positivas para gripe aviária de amostras relacionadas a outras enfermidades aviárias.
Além da precisão, a rapidez chamou atenção. O exame pode ser realizado em aproximadamente seis minutos, tempo significativamente menor do que muitos métodos atualmente utilizados em laboratórios.
Os testes foram realizados tanto em amostras comerciais quanto em amostras de soro contendo anticorpos contra o H5N1, confirmando a eficiência da tecnologia em diferentes condições de análise.
Segundo os autores, a plataforma poderá ser utilizada futuramente em clínicas veterinárias, granjas, centros de monitoramento sanitário e até mesmo em aplicações voltadas à saúde humana. Outra vantagem é a possibilidade de adaptação do sistema para detectar outros vírus e doenças infecciosas.
Para o autor correspondente desta pesquisa, o docente e pesquisador do IFSC/USP Prof. Dr. Osvaldo Novais de Oliveira Junior, o maior destaque do trabalho está na conjunção de diferentes tecnologias desenvolvidas no Brasil. “As medidas elétricas foram feitas com um analisador portátil de uma startup brasileira, a Blatron, e os dados da língua eletrônica foram processados com um método de calibração que utiliza aprendizado de máquina”, salienta o pesquisador.
O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), Embrapa Instrumentação, Universidade Federal do Amazonas, Instituto Federal de São Paulo e de instituições internacionais parceiras.
Para os cientistas, a nova ferramenta representa um avanço importante no desenvolvimento de diagnósticos rápidos, acessíveis e capazes de contribuir para o controle de futuras epidemias.
Esta pesquisa contou com os apoios do INEO, CAPES, CNPq e FAPESP.
Confira no link o original deste estudo – https://pubs.acs.org/doi/10.1021/acsanm.6c00138?__cf_chl_tk=atypmqo7uj_kvnwaj.3eac0gact_9rcmxfxohjb2o1c-1781699309-1.0.1.1-juszlz53nhx3ruqjiw3afiljogmu5pgm.actpdw7wdk
O tratamento do câncer vive uma nova fase impulsionada pela imunoterapia, área que estimula o próprio sistema imunológico a combater os tumores.
SÃO CARLOS/SP - Entre as tecnologias mais promissoras estão as terapias com células CAR-T e as chamadas nanovacinas contra o câncer, tema de uma ampla revisão científica publicada por pesquisadores do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP).
Segundo o estudo, o câncer continua sendo um dos maiores desafios de saúde pública no mundo. Em 2020, cerca de 18 milhões de pessoas receberam diagnóstico da doença e 10 milhões morreram em decorrência dela. A tendência é de crescimento nas próximas décadas.
CAR-T: células reprogramadas para atacar o tumor
A terapia CAR-T funciona a partir da coleta de células de defesa do próprio paciente, que são modificadas em laboratório para reconhecer e destruir células cancerosas. Depois de multiplicadas, essas células são reinfundidas no organismo.
O método já conta com sete terapias aprovadas pela agência reguladora dos Estados Unidos (FDA), principalmente para leucemias, linfomas e mieloma múltiplo. Em alguns casos, as taxas de remissão ultrapassam 80%.
Os pesquisadores destacam que a grande vantagem do CAR-T é sua capacidade de reconhecer tumores de forma direta e altamente específica. Além disso, a tecnologia vem sendo estudada também para doenças autoimunes e infecciosas.
Apesar dos resultados expressivos, a terapia ainda enfrenta obstáculos importantes. Entre eles estão os efeitos colaterais potencialmente graves, como reações inflamatórias intensas e alterações neurológicas, além do alto custo do tratamento, que pode chegar a centenas de milhares de dólares por paciente.
Outro desafio é a dificuldade de atuação em tumores sólidos, como os de pulmão, mama e cérebro. Esses tumores criam um ambiente que dificulta a entrada e a ação das células CAR-T, além de apresentarem grande diversidade de antígenos, o que facilita o escape do câncer ao tratamento.
Nanovacinas: estimulando uma resposta ampla do sistema imune
As nanovacinas terapêuticas representam outra frente inovadora da imunoterapia. Diferentemente das vacinas tradicionais, usadas para prevenir doenças infecciosas, essas vacinas buscam ensinar o sistema imunológico a reconhecer e combater tumores já existentes.
A tecnologia utiliza nanopartículas para transportar antígenos tumorais e substâncias que ativam células de defesa, especialmente os linfócitos T. Esse sistema melhora a entrega dos componentes da vacina aos linfonodos, locais centrais da resposta imune.
Entre os formatos mais estudados estão as vacinas baseadas em RNA mensageiro (mRNA), semelhantes às utilizadas durante a pandemia de Covid-19. Empresas como BioNTech e Moderna lideram pesquisas nessa área.
O estudo cita resultados animadores em pacientes com melanoma tratados com uma vacina personalizada de mRNA combinada ao medicamento pembrolizumabe. Houve redução significativa do risco de recorrência e de metástase em comparação ao uso isolado do medicamento.
As nanovacinas também têm a vantagem de estimular uma resposta imunológica mais ampla, envolvendo diferentes tipos de células de defesa e favorecendo a formação de memória imunológica de longa duração.
Comparação e possíveis combinações
Os autores da revisão ressaltam que CAR-T e nanovacinas não são tecnologias concorrentes, mas potencialmente complementares.
O CAR-T oferece uma ação rápida e extremamente específica, enquanto as nanovacinas conseguem atingir múltiplos antígenos tumorais e gerar respostas imunes mais diversificadas e duradouras.
A combinação das duas abordagens, juntamente com medicamentos que desbloqueiam o sistema imunológico, aparece como uma das estratégias mais promissoras para o futuro da oncologia.
O futuro da imunoterapia
A revisão aponta que o avanço dessas tecnologias depende de superar desafios como a redução de custos de produção; melhoria da segurança dos tratamentos; aumento da eficácia em tumores sólidos; desenvolvimento de respostas imunes mais duradouras; e aprimoramento da personalização terapêutica.
Para o Doutorando Gabriel de Camargo Zaccariotto, essas tecnologias são abordagens centrais no futuro do tratamento do câncer: “Há alguns anos, as células CAR-T vêm representando um marco na história da terapia contra o câncer, especialmente no tratamento das neoplasias hematológicas. Mais recentemente, essa abordagem também tem avançado no enfrentamento dos desafiadores tumores sólidos, com resultados clínicos extremamente encorajadores em tumores altamente agressivos, como o glioblastoma. Paralelamente, embora ainda não exista nenhum produto aprovado, as nanovacinas vêm apresentando avanços promissores em ensaios clínicos para diferentes tipos de câncer, incluindo melanoma, câncer de pulmão, câncer de pâncreas e câncer colorretal”.
Mesmo com as limitações atuais, os pesquisadores consideram que CAR-T e nanovacinas representam uma mudança de paradigma no tratamento do câncer e podem transformar a prática clínica nos próximos anos, sendo que, sobre este aspecto, o coordenador do Grupo de Nanomedicina e Nanotoxicologia do Instituto de Física de São Carlos (GNano- IFSC/USP) e um dos autores do artigo publicado na revista científica internacional “Biotechnology Advances”, Prof. Dr. Valtencir Zucolotto, comenta que “Tanto CAR-T quanto Nanovacinas representam pilares das novas gerações de imunoterapias conta o câncer. Em ambos os casos, a combinação de Nano e Biotecnologia é crucial para assegurar precisão a nível celular, eficácia e redução de custos”.
Esta pesquisa teve o apoio da FAPESP e do CNPq
Confira no link o original deste estudo - https://www2.ifsc.usp.br/portal-ifsc/wp-content/uploads/2026/06/Review-Nano-CarT-full-zuco.pdf
SÃO CARLOS/SP - Pesquisadores do Brasil e dos Estados Unidos desenvolveram um método inovador para medir a estabilidade de redes neurais responsáveis por atividades rítmicas fundamentais do organismo.
O estudo, publicado na revista científica “Chaos, Solitons and Fractals”, mostra que o chamado “ruído intrínseco” — pequenas variações naturais na atividade elétrica dos neurônios — pode revelar o grau de estabilidade dessas redes, mesmo diante de alterações significativas em suas conexões.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade Federal do ABC (UFABC), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP) e da University of California San Diego, nos Estados Unidos. O trabalho investigou os chamados “Central Pattern Generators” (CPGs), circuitos neurais responsáveis por gerar ritmos automáticos essenciais ao funcionamento dos seres vivos, como respiração, mastigação e locomoção.
Segundo os autores, compreender a estabilidade desses circuitos é um desafio histórico da neurociência. Embora os CPGs sejam conhecidos por sua robustez — mantendo o funcionamento mesmo diante de perturbações, ruídos biológicos e alterações sinápticas — ainda faltavam métodos quantitativos capazes de medir essa estabilidade com precisão.
Para enfrentar esse problema, os cientistas utilizaram um sistema experimental baseado no circuito pilórico de crustáceos, modelo clássico em neurofisiologia. O estudo analisou neurônios responsáveis pela geração de ritmos digestivos em lagostas da Califórnia, utilizando técnicas avançadas de registro elétrico e manipulação sináptica por meio de dynamic clamp, ferramenta que permite modificar artificialmente conexões entre neurônios em tempo real.
A continuidade dos padrões motores essenciais ao organismo.
Os pesquisadores descobriram que, mesmo após a remoção funcional de uma das conexões sinápticas consideradas mais importantes da rede, o sistema permaneceu estável. Isso indica que os CPG’s possuem mecanismos redundantes capazes de preservar o padrão rítmico mesmo sob fortes perturbações.
O método desenvolvido baseia-se na análise matemática das pequenas flutuações naturais da atividade neuronal. Em vez de considerar o “ruído” biológico como um problema experimental, os cientistas o utilizaram como fonte de informação para estimar a estabilidade dinâmica da rede neural. A equipe também aplicou técnicas estatísticas de bootstrap para calcular intervalos de confiança e validar os resultados obtidos.
Os resultados mostraram que todos os circuitos analisados permaneceram dentro de uma faixa considerada estável, mesmo quando submetidos a fortes modificações sinápticas. Segundo os autores, isso sugere que sistemas neurais responsáveis por funções vitais evoluíram para operar com elevado grau de robustez, garantindo a continuidade dos padrões motores essenciais ao organismo.
Além de ampliar o conhecimento sobre o funcionamento cerebral, o estudo pode ter aplicações em diferentes áreas científicas e tecnológicas. Os pesquisadores destacam possíveis impactos no desenvolvimento de robôs bioinspirados, em modelos computacionais de redes neurais e na compreensão de doenças neurológicas associadas à perda de estabilidade dos ritmos cerebrais. A participação brasileira teve destaque na pesquisa, reforçando o protagonismo do país em estudos de neurociência computacional e dinâmica de sistemas complexos.
Para o cientista do IFSC/USP, Prof. Dr. Reynaldo Daniel Pinto, esta pesquisa demonstra a enorme complexidade presente mesmo nesses pequenos circuitos, formados por pouco mais de uma dezena de neurônios, que apresentam, ao mesmo tempo, estabilidade funcional e flexibilidade para adaptar seus padrões em tempo real. “Essas propriedades antagônicas representam o clássico dilema de engenharia biológica sob o qual o cérebro humano se desenvolveu e é crucial para o desenvolvimento de circuitos artificiais bioinspirados”, explica o cientista.
O trabalho recebeu apoio da Fapesp, do CNPq e do “National Institutes of Health” (NIH), dos Estados Unidos.
Confira o original deste estudo no link - https://www2.ifsc.usp.br/portal-ifsc/wp-content/uploads/2026/06/1-s2.0-S0960077926002249-main.pdf
SÃO CARLOS/SP - Um estudo internacional liderado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), entre eles cientistas do IFSC/USP, e de instituições francesas revelou, pela primeira vez, como partículas de carbono negro — um dos principais poluentes gerados pela queima incompleta de combustíveis fósseis — são ingeridas e transformadas dentro de organismos marinhos microscópicos.
Publicado na revista científica Environmental Science & Technology, o trabalho utilizou uma avançada técnica de microscopia de dois fótons para acompanhar, em tempo real e sem o uso de marcadores químicos, o comportamento do chamado “black carbon” em copépodes do gênero Acartia, pequenos crustáceos que compõem grande parte do zooplâncton oceânico.
O carbono negro é considerado um importante agente de aquecimento climático e um contaminante amplamente presente nos oceanos. Apesar disso, pouco se sabia sobre a forma como ele interage biologicamente com organismos marinhos.
A pesquisa mostrou que os copépodes ingerem partículas provenientes da fuligem de motores a diesel e que essas partículas sofrem alterações estruturais ao longo do trato digestivo. Segundo os cientistas, o ambiente intestinal dos animais modifica o arranjo molecular do material poluente, transformando agregados sólidos em estruturas mais dispersas e potencialmente mais reativas.
A técnica empregada permitiu diferenciar, com alta precisão, as partículas de carbono negro dos pigmentos naturais presentes nos organismos, criando o que os autores chamaram de “linha de base intestinal livre de pigmentos”. Isso possibilitou observar diretamente a presença do poluente dentro do intestino dos animais vivos.
Os resultados também revelaram alterações fisiológicas associadas à ingestão do material. Os copépodes expostos ao carbono negro apresentaram dilatação intestinal semelhante à observada durante a alimentação natural, indicando que o organismo processa o poluente como se fosse alimento.
Pontos de preocupação
Além dos impactos imediatos observados nos organismos analisados, os pesquisadores alertam para possíveis riscos ambientais decorrentes desse processo. Como o zooplâncton ocupa a base da cadeia alimentar marinha, a contaminação pode atingir peixes, crustáceos maiores e outros animais marinhos, ampliando a circulação do carbono negro nos ecossistemas oceânicos.
Os cientistas destacam ainda que as alterações sofridas pelas partículas dentro do intestino dos copépodes podem aumentar a capacidade de dispersão do poluente na água, favorecendo sua permanência no ambiente e potencializando efeitos tóxicos relacionados ao estresse oxidativo e à presença de compostos químicos derivados da combustão.
Outro ponto de preocupação é o possível impacto sobre o ciclo global do carbono. Como os copépodes desempenham papel fundamental no transporte de matéria orgânica para regiões profundas do oceano, a transformação do carbono negro por esses organismos pode interferir nos mecanismos naturais de armazenamento de carbono e, consequentemente, nas dinâmicas climáticas globais.
Especialistas também apontam que a presença contínua desse material nos oceanos pode comprometer o equilíbrio ecológico, afetando processos de alimentação, reprodução e sobrevivência de espécies marinhas sensíveis à poluição.
Os experimentos foram realizados com partículas coletadas diretamente da emissão de motores a diesel na cidade de São Paulo, sendo que o material foi preparado em diferentes formas — particulada e dissolvida — para avaliar seu comportamento óptico e biológico.
Para a cientista Maria Luiza Vicente, primeira autora do estudo e pesquisadora correspondente junto com o Prof. Dr. Francisco Gontijo Guimarães, ambos do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP) a descoberta ajuda a compreender melhor o destino ambiental do carbono negro nos oceanos e o papel do zooplâncton na transformação desse poluente. Ao comentar este estudo, a pesquisadora afirma: “Os resultados obtidos neste trabalho possuem implicações globais, principalmente por se tratar de um ecossistema de influência central na dinâmica mundial: o meio marinho. A parceria internacional envolvida não apenas viabilizou minha dupla titulação no doutorado, mas também promoveu a sinergia entre o estudo dos impactos de poluentes emergentes e técnicas ópticas avançadas, na fronteira do conhecimento”, sublinha a jovem pesquisadora.
Essa interdisciplinaridade, que foi reconhecida pela revista de alto impacto Environmental Science & Technology, demonstra novas aplicações da física em áreas de extrema relevância social e ambiental. No futuro, segundo a pesquisadora, ao somar-se aos avanços das pesquisas ecotoxicológicas, esses dados poderão subsidiar a formulação de políticas públicas voltadas ao tratamento de poluentes no meio marinho. “A técnica desenvolvida é de fato inovadora, principalmente por revelar formas antes não diretamente estudadas desses contaminantes em meio aquoso, permitindo entender seu processo de transformação in vivo. Acreditamos que este estudo abre caminhos para desvendarmos o destino de poluentes de carbono emergentes e o real cenário do estoque de carbono nos oceanos”, conclui a pesquisadora.
Além dos cientistas do Instituto de Física de São Carlos (IFSC/USP), esta pesquisa contou com a participação de pesquisadores da Universidade de Toulon, na França, e do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da USP.
O trabalho contou com apoio da Fapesp, Capes e do programa internacional USP-Cofecub/Campus France.
(Créditos da imagem - Copepod Acartia – Research Gate/Veronica Lundgren)
Para conferir o original do trabalho publicado acesse - https://pubs.acs.org/doi/10.1021/acs.est.5c18449
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